Todo dia à tarde, mesma hora, chovesse ou fizesse sol, lá vinha ele.
Magro, boa estatura, cabeleira grisalha e farta, camisa social surrada, calça manchada,que a velha cinta ajudava a manter acima da cintura, trazendo à mão, uma velha maleta executiva.
Teria, talvez, uns 75 anos.
Fingindo seguir em frente, ao chegar às portas fechadas de um bar noturno, cujo forro preto as tornava , providencialmente, um grande espelho, ele, disfarçando, parava.
Olhava para um lado e para o outro, colocava, invariavelmente, a maleta entre as pernas e examinava-se de forma demorada, ajeitando bem os cabelos.
Como toque final, apertava tanto as têmporas, até obter o resultado desejado, que mais parecia um caroço de manga chupado, com leve inclinação para um lado.
Satisfeito, pegava novamente a velha maleta e, atravessando a rua, passo a passo, entrava decidido no supermercado em frente onde, talvez, se encontrasse a razão daquele preparo todo.