quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UMA SEGUNDA CHANCE

      Na última aula da Oficina de Escrita recordamos, ou melhor, aprendemos o que é         Prosopopeia.


"ret figura pela qual o orador ou escritor empresta sentimentos humanos e palavras a seres inanimados, a animais, a mortos ou a ausentes; personificação, metagoge."

Nossa lição foi, portanto, elaborar um texto como sendo um objeto de brechó, que ficou assim:


Vai ser difícil sair daqui.
As pessoas me olham, me tocam, fico animado, mas nada. Vão embora sem, ao menos, me dar um até logo.
Eu me sinto mal, sabe? Diminuído, esquecido, desprezado.
E lembrar que já tive meus momentos de glória...
Lembro-me de quando fui destaque pela primeira vez. Era um dia de festa. Todos me admiravam. Eu estava radiante. Brilhava!
Fui idealizado por um cara importante, de renome. Especialmente para aquela data.
Suely recomendou:
─ Quero que todos se lembrem deste momento, portanto capriche.
E ele caprichou.
Fiquei sem saber o valor de tudo aquilo. Mas isso não era importante naquele momento. Estava feliz porque iria chamar a atenção de todos. Era o que eu queria.
A gente vive de altos e baixos. A vida é uma roleta russa. Hoje estou aqui, em segundo plano, vendo gente entrando e saindo, sem ser notado.
Opa. Estou sendo acariciado. Nossa, que sensação deliciosa!
Parece que fui escolhido. Já me sinto mais animado.
Acho que agradei. Vejo que estão combinando o valor. Não consigo entender o que dizem, mas...
Viva! Deu certo.
Não serei mais apenas um velho vestido abandonado num brechó.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Crônica do dia a dia

Reflexões de um mal-humorado

Tenho refletido sobre minha forma de ser e, num momento de insônia, decidi mudar de atitude. Não seria mais um cara mal humorado e não diria mais tanto “não”.
Quando desci para o café, Luzia conversava animadamente com nossos filhos.  Pararam imediatamente de falar e percebi a troca de olhares ao me verem todo sorridente distribuindo beijos.
Ainda pude ouvi-la falando algo como “louca pra comprar...”
- O que é que você estaria louca para comprar, meu bem? – disse-lhe eu carinhosamente.
- Ah, deixa pra lá. – respondeu Luzia, levantando os ombros.
- O que quer que seja,  faço questão que compre. Use o cartão de crédito. Quero vê-la feliz.
Eles se olharam sem entender o que estava acontecendo  e eu disfarcei, servindo-me de mais café.
Dificilmente, sentava-me à mesa com eles para um café da manhã tranquilo. Ou reclamava dos gastos de cada um, ou, simplesmente, lia meu jornal engolindo um café pretinho.
Meu filho ensaiou:
- Pai, a galera tá marcando um fim de semana em Ilhabela e...
- De quanto você precisa, filho. Diga que coloco na sua conta. Aproveite a vida. Vá com a galera passar o fim de semana. Sei que você é ajuizado. Confio em você.
Minha filha, até então calada, arriscou:
- Pai, neste ano pra participar da formatura eu...
- Já sei,  filhota, é necessário contribuir mensalmente. Quanto? Quanto é a cota mensal? Tenho certeza de que você se formará com louvor. Sempre foi uma aluna exemplar.
Acabei de tomar o café, beijei os três que continuavam me olhando perplexos e perguntei?
- Alguém quer uma carona?
Saí assobiando e me sentindo mais feliz. Afinal, pela primeira vez em tantos anos, tivera um momento agradável com minha família.
Peguei o carro e, mal tinha andado duas quadras, senti que a direção puxava para o lado. Parei para verificar. O pneu da frente estava furado.
Eu, de terno, gravata e com reunião marcada para daí uma hora.
Abordei um rapaz que passava:
- Sabe trocar pneu?
- Sei sim, moço.
O rapaz era rápido e jeitoso e num instante fez o serviço.
Ficou agradecido com os cinquentinha que lhe dei.
O trânsito estava infernal. O sinal fechava e abria e ninguém andava.
Os ambulantes entraram em ação:
- Vai carregador de celular, doutor?  - Comprei um.
- Pano de chão, meia dúzia por R$ 25,00!
- Dá aqui meia dúzia, amigão.
- Fruta do Conde! Fruta do Conde! Leve seis e pague cinco.
E foi caixa de morango, vassourinha pra limpar teto, balas de todos os tipos, panos de prato, raquete para matar mosquito, guarda-chuva, sem falar no trocado que dei para os malabaristas da esquina e para os mendigos.
Cheguei em cima da hora da reunião. Minha secretária me aguardava ansiosa e com muito jeito me avisou que a reunião havia sido desmarcada.
- Tentei ligar pro seu celular, mas estava fora de área.
Demonstrou surpresa quando lhe falei:
 - Tudo bem, Fátima, aproveito pra descansar um pouco.
Mas, o outro cliente também telefonou adiando a reunião.
- Sem problema, Clóvis - disse-lhe  eu no meu melhor humor - veja o dia e a hora que lhe convém.
Aproveitei e convidei Fátima para almoçar comigo. Ela ficou me olhando e perguntou:
- Tá tudo bem, seu Armando?
- Está tudo ótimo, Fátima. Já que não há reunião vamos almoçar com muita calma. Quero aproveitar para comprar um presente para Luzia. Gostaria que me ajudasse.
Cheguei em casa tarde, mas feliz. Quando estava entrando, um rapaz me perguntou se tinha alguma coisa para dar e deve ter ficado sem entender  por sair com caixa de morango, fruta do conde, vassourinha pra limpar teto, pano de chão, guarda chuva, carregador de celular, etc., etc., etc.

Hoje concluí que nós somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade.