Reflexões de um mal-humorado
Tenho refletido sobre
minha forma de ser e, num momento de insônia, decidi mudar de atitude. Não seria
mais um cara mal humorado e não diria mais tanto “não”.
Quando desci para o
café, Luzia conversava animadamente com nossos filhos. Pararam imediatamente de falar e percebi a
troca de olhares ao me verem todo sorridente distribuindo beijos.
Ainda pude ouvi-la
falando algo como “louca pra comprar...”
- O que é que você
estaria louca para comprar, meu bem? – disse-lhe eu carinhosamente.
- Ah, deixa pra lá. – respondeu
Luzia, levantando os ombros.
- O que quer que seja, faço questão que compre. Use o cartão de
crédito. Quero vê-la feliz.
Eles se olharam sem
entender o que estava acontecendo e eu disfarcei,
servindo-me de mais café.
Dificilmente,
sentava-me à mesa com eles para um café da manhã tranquilo. Ou reclamava dos
gastos de cada um, ou, simplesmente, lia meu jornal engolindo um café pretinho.
Meu filho ensaiou:
- Pai, a galera tá
marcando um fim de semana em Ilhabela e...
- De quanto você
precisa, filho. Diga que coloco na sua conta. Aproveite a vida. Vá com a galera
passar o fim de semana. Sei que você é ajuizado. Confio em você.
Minha filha, até então
calada, arriscou:
- Pai, neste ano pra
participar da formatura eu...
- Já sei, filhota, é necessário contribuir mensalmente.
Quanto? Quanto é a cota mensal? Tenho certeza de que você se formará com
louvor. Sempre foi uma aluna exemplar.
Acabei de tomar o café,
beijei os três que continuavam me olhando perplexos e perguntei?
- Alguém quer uma
carona?
Saí assobiando e me
sentindo mais feliz. Afinal, pela primeira vez em tantos anos, tivera um
momento agradável com minha família.
Peguei o carro e, mal
tinha andado duas quadras, senti que a direção puxava para o lado. Parei para
verificar. O pneu da frente estava furado.
Eu, de terno, gravata e
com reunião marcada para daí uma hora.
Abordei um rapaz que
passava:
- Sabe trocar pneu?
- Sei sim, moço.
O rapaz era rápido e
jeitoso e num instante fez o serviço.
Ficou agradecido com os
cinquentinha que lhe dei.
O trânsito estava
infernal. O sinal fechava e abria e ninguém andava.
Os ambulantes entraram
em ação:
- Vai carregador de
celular, doutor? - Comprei um.
- Pano de chão, meia
dúzia por R$ 25,00!
- Dá aqui meia dúzia,
amigão.
- Fruta do Conde! Fruta
do Conde! Leve seis e pague cinco.
E foi caixa de morango,
vassourinha pra limpar teto, balas de todos os tipos, panos de prato, raquete para
matar mosquito, guarda-chuva, sem falar no trocado que dei para os malabaristas
da esquina e para os mendigos.
Cheguei em cima da hora
da reunião. Minha secretária me aguardava ansiosa e com muito jeito me avisou que
a reunião havia sido desmarcada.
- Tentei ligar pro seu
celular, mas estava fora de área.
Demonstrou surpresa
quando lhe falei:
- Tudo bem, Fátima, aproveito pra descansar um
pouco.
Mas, o outro cliente também
telefonou adiando a reunião.
- Sem problema, Clóvis
- disse-lhe eu no meu melhor humor - veja
o dia e a hora que lhe convém.
Aproveitei e convidei
Fátima para almoçar comigo. Ela ficou me olhando e perguntou:
- Tá tudo bem, seu
Armando?
- Está tudo ótimo,
Fátima. Já que não há reunião vamos almoçar com muita calma. Quero aproveitar para
comprar um presente para Luzia. Gostaria que me ajudasse.
Cheguei em casa tarde,
mas feliz. Quando estava entrando, um rapaz me perguntou se tinha alguma coisa
para dar e deve ter ficado sem entender por sair com caixa de morango, fruta do conde,
vassourinha pra limpar teto, pano de chão, guarda chuva, carregador de celular,
etc., etc., etc.
Hoje concluí que nós
somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade.