Depois de tantos anos, Lúcia voltava a Marília, cidade onde passara
tantas férias. Deixara em
São Paulo, o marido, os filhos e aproveitara o feriado de
quarta-feira, emendando com o fim de semana, assim passaria cinco dias na casa
de Célia, sua prima. Havia muito que ela insistia para que viesse. E era sempre
tão difícil deixar a confecção, a casa, as obrigações.
Mas, andava cansada. Tivera alguns problemas com os funcionários da
confecção, que a desgastaram bastante e Flávio insistira para que fosse. Ele
não poderia acompanhá-la porque aproveitaria o feriado para adiantar um projeto
importante, que teria que apresentar à diretoria da empresa em que trabalhava.
Patrícia, sua filha, cuidaria da confecção. Quanto a isso estava tranqüila.
Sabia que podia confiar nela. Apenas ficava preocupada em sobrecarregá-la. Mas,
sabia que necessitava daquela paradinha para repor as energias.
A lembrança da casa de Tia Laura a remetia a tantas recordações, da
infância, da juventude, do quintal cheio de frutas.
Ela, os primos, os amigos dos primos, os primos dos primos passavam horas
ao pé daquelas árvores, conversando, rindo, chupando mexerica, laranja, comendo
goiaba. Ah! Como era boa aquela goiaba
branca, que nascia no meio das pedras.
Chorava sempre quando as férias
terminavam. Pensar que só no próximo semestre voltaria, parecia-lhe uma eternidade.
Enquanto o ônibus ia entrando na cidade observava tudo. Estava tão
diferente. Com movimento de cidade grande. Custou a reconhecer alguns lugares.
Célia foi buscá-la na Rodoviária.
Ainda bem, porque não saberia chegar mais à casa. Foram sempre muito chegadas.
Tinham quase a mesma idade.
No caminho, Célia mostrava, animada, as ruas, as igrejas, a pracinha, o
Coreto. Lá estava ele igual. Quanta lembrança!
Ali, na Praça do Coreto, Rui a pedira em namoro. Sabia de cor cada
palavra trocada naquele dia. Recordava-se tão bem daquele momento mágico, que a
fizera tão feliz. Ele tinha sido seu primeiro amor, primeiro namorado.
Era primo distante de Célia, só que do lado do pai. Também passava férias
sempre ali. Morava em
Campinas. Era dois anos mais velho que ela.
Em uma das férias, então adolescentes, se descobriram apaixonados.
Ele era tão bonito. E ela, com quinze para dezesseis anos, era insegura.
Achava-se sem graça, gorda. Olhava as meninas um pouco mais velhas e as achava
tão atraentes.
Tia Laura, mulher jovial e alegre, percebia tudo que acontecia e estava
sempre perto, aconselhando, ajudando, tomando conta. A ela devia sua profissão,
pois fora quem lhe ensinara as primeiras noções de costura.
- Está com fome ou podemos dar uma volta pela cidade? Célia lhe
perguntava.
Só então se deu conta de que estivera com o pensamento tão longe.
- Não, não, podemos dar uma volta pra ver se eu consigo me lembrar. Estou
achando tudo tão diferente.
Não conseguia prestar atenção ao que a prima, muito falante, ia contando.
Divagara, ao voltar o pensamento àqueles anos tão distantes.
Quando viu, estava diante da casa, que continuava do mesmo jeito.
Foram dias muito agradáveis, que fizeram muito bem a Lúcia. Conversaram
muito, recordaram passagens engraçadas, viram fotos daquela época. Dançaram,
recordando coreografias, que ensaiavam durante a semana para estarem em forma
nos bailinhos de sábado. As duas sempre tinham sido muito alegres e
companheiras.
As frutas do quintal, nas mãos de Donana, transformavam-se, inevitavelmente, em doces maravilhosos. Donana estava na casa há mais de quarenta
anos.
No sábado, pela manhã, como Célia já havia assumido um compromisso, pegou
carona até a Praça do Coreto.
Ficou ali, sentindo a brisa, olhando os passarinhos, que voavam de galho
em galho, as crianças, que brincavam. Seu pensamento estava distante.
E, de repente, o viu, a alguns passos dela. Sim, era ele mesmo, de carne
e osso, Rui. Sentiu o ar lhe faltar.
Estava igual. Um pouco mais gordo. O tempo tinha sido generoso com ele. O
cabelo grisalho o deixava mais charmoso ainda.
Ele também a viu. Reconheceu. E foi se aproximando, sorrindo.
- Você é a Lúcia, não é?
Sorriu ao mesmo tempo em que balançava a cabeça, afirmativamente.
Parecia uma adolescente. Sentia seu coração bater fortemente e o rubor
subir-lhe às faces. Teve dificuldade de responder. Tentava disfarçar. Ele
sorria, divertido, certamente percebendo o que ocorria.
Tantas vezes imaginara aquele encontro. Chegou a pensar que morreria sem,
jamais, revê-lo. Não costumava perguntar à prima sobre ele. Sabia que ele se
casara com uma moça de Marília, mudara-se para São Paulo onde era
oftalmologista. Mas, procurava sempre fingir, que ele não lhe interessava.
Por segundos, passaram-lhe pela cabeça vários flashes de quarenta e poucos anos atrás.
Eles adolescentes, cheios de ilusão. Aquela fase melhor da vida em que
tudo é lindo. A descoberta do amor. Um amor inocente, do suspiro, da ilusão, mas,
possessivo, sem complacência. Preferira romper a aceitar dividi-lo com alguém.
Na verdade, sabia que ele, muito jovem, bonito e desejado por tantas e
lindas garotas, estava descobrindo a vida.
Nesse mundinho, ela ocupava um pequenino papel, talvez até importante,
porém pra ela era pouco. Desejava exclusividade.
E então, determinada, afastara-se, definitivamente, procurando sufocar o sentimento,
que nutria por ele e esforçando-se por apagá-lo definitivamente da memória.
- A gente teve um affair, não
teve? - ele se dirigia a ela.
Teve que manter-se firme para não demonstrar toda a emoção, que estava
sentindo.
- Faz tanto tempo. (ouviu-se dizer, arrependendo-se imediatamente e sentindo-se
uma perfeita idiota).
E ele continuou:
- Eu me lembro de uma reconciliação, na qual tudo parecia indicar, que a
gente ficaria junto para sempre.
E ela teve que admitir, que também se recordava daquele momento, e como.
O que a surpreendeu foi saber, que ele também se lembrava.
Achava que aquilo tinha sido importante apenas pra ela.
E Rui estava ali, tão tangível, tão amigável, tão charmoso.
A vida dera voltas. Encontrara o amor de sua vida. AMOR com letra
maiúscula, sua alma gêmea, com quem tinha identidade total.
Com Flávio constituiu família, teve duas filhas e um filho, Felipe. Uma
família linda, unida, cheia de amor. Um exemplo de união, afetividade, harmonia.
Exemplo admirado por todos, que os cercavam. Apenas Renata se casara.
Juntos, passaram por momentos difíceis que, com ajuda mútua, conseguiram
superar.
Juntos, passaram tantas alegrias. Momentos indescritíveis, que ficariam
registrados para sempre.
Mas, sentia-se balançada com aquele reencontro. Saber que ele também se
recordava daquele tempo.
A volta da adolescência, a retomada dos sentimentos, a ambiguidade.
De um lado, a razão mostrando a realidade, boa, feliz, cheia de emoções.
De outro, o coração querendo pregar-lhe uma peça.
Despedira-se, tentando disfarçar a inquietação, que aquele encontro lhe
propiciara.
No domingo, voltou para São Paulo. A viagem pareceu demorar mais do que o
normal. O coração teimava em bater descompassadamente. Repetia para si mesma
cada uma das palavras trocadas naquela Praça do Coreto.
O tempo, melhor amigo nessas ocasiões, tratou de fazê-la retomar sua vida
agitada: trabalho, casa, filhos, marido, enfim.
Às vezes, se encontrava lembrando aquele encontro e as antigas emoções, mas tentava
distrair-se para não remexer as velhas feridas.
Alguns anos depois daquele encontro, ele telefonou para a confecção.
Estava saudoso. Queria saber como ela estava. Conversaram.
Ela procurou parecer natural, embora o coração ameaçasse saltar-lhe. Combinaram
de se falar mais.
A princípio, falavam-se esporadicamente.
Passado algum tempo, passaram a se falar mais amiúde.
Ela acostumara-se àqueles papos. Fazia-lhe bem. Falava da família, do
trabalho. Ele também lhe contava casos. Falava sobre o trabalho. Sobre os
filhos, os netos. Costumava levá-los frequentemente a Marília, onde ainda vivia
a família da esposa.
O bom humor e o descomprometimento faziam daqueles momentos um relax.
Passado mais um tempo, ele sugeriu um encontro.
“Que mal haveria num encontro.”
Resoluta, resolveu aceitar.
No dia marcado, lá estava ela em frente ao espelho, tentando disfarçar as
marcas, que o tempo lhe impingira.
O encontro foi muito agradável. Conversaram muito. Lembraram-se dos
velhos tempos, dos bailinhos, do footing
na Praça do Coreto de Marília, da moda, dos cabelos armados das meninas, do
cinema, que tinha uma sessão só, onde todos se encontravam, da guerra de
pipoca, que muitas vezes fazia o lanterninha botar pra fora o infrator. Riram muito, recordando-se daqueles momentos.
Tinham pouco tempo. E o tempo passou depressa.
Mas, naquela pouco mais de uma hora o conhecera mais do que nos velhos
tempos. Achara-o gentil, divertido, educado, falante e, “como continuava bonito”.
Despediram-se, apressadamente, cada um tomando seu rumo. Voltou à confecção
com uma agradável sensação.
Para ele teria sido também um momento prazeroso, tanto que lhe mandou uma
mensagem.
Continuaram falando-se por telefone. E, quando ele insinuava a
perspectiva de um novo encontro, ela desconversava buscando uma razão qualquer
para adiar.
Tinha medo de si mesma, de um envolvimento, de magoar a família tão
querida.
Ele, cavalheiro, respeitava.
No entanto, encontraram-se mais algumas vezes. Sempre rapidamente, mas
eram sempre bons aqueles momentos.
Ela deixava claro, para ele, sua felicidade, sua cumplicidade com o
marido, sua harmonia familiar.
Mas, essa proximidade mexia com ela. Muitas vezes, se pegava pensando
nele. Sentia vontade de pegar o telefone e ligar para não falar nada
importante. Apenas ouvi-lo. Sentir-se próxima.
Começou a preocupar-se. Estava
sendo inconsequente. Comportando-se como uma jovem adolescente. Precisava botar
um ponto final. Não pretendia viver uma aventura, da qual depois viesse a se
arrepender.
Tinha sido sempre tão correta, tão cumpridora de suas obrigações, tão
voltada à sua família. E isso incluía principalmente Flávio, sempre presente, adorável,
companheiro, querido.
Sentiu que devia, novamente, se afastar. Se, na adolescência, tivera
coragem suficiente para isso, não seria agora, na maturidade, que teria
qualquer dificuldade.
Determinada, ligou para Rui e comunicou-lhe a decisão. Ele ainda tentou
marcar um encontro para conversarem, pessoalmente, mas ela foi irredutível.
Para o amor não há idade. Ele será sempre aquele sentimento, que causa calafrios
e proporciona felicidade. Entretanto, algumas vezes, há que se saber distinguir
um amor verdadeiro de uma tentativa de resgatar algo mal resolvido no passado.
Sobretudo, se isso acontece na
Terceira Idade.