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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Mulher, Mulher...



Tantas facetas na nossa vida de mulher.
Agora, por exemplo, estava lavando louça. Sim. Lavando louça. Tentando usar luvas de borracha para não estragar as unhas recém-pintadas.
Que malabarismo! Já quebrei copos, xícaras e pratos. O que posso fazer, escorregam da minha mão com luvas. Confesso que tenho muita dificuldade de usá-las. Mas são um mal necessário.
Também quero cantar e estou me preparando para um musical do coral a que pertenço. Aí, outra dificuldade: decorar as letras. Apesar do conselho de minha neta de dez anos que diz que tenho que repetir infinitas vezes...
Pior. A apresentação é amanhã. E dá-lhe gravador. E dá-lhe repetir infinitas vezes.
O curso de escrita teve que ficar um pouco de lado. O que não me impede de participar da Antologia de contos que será lançada no Clube  em fins de novembro. Estaremos lá com alguns contos que estou aprendendo a escrever.
Bem, tirando as horas de dona de casa, de motorista particular, de cuidadora, como diz meu marido, de avó coruja e um pouquinho de mãe – por incrível que pareça, ainda – tenho que cuidar da aparência, afinal os brancos insistem em dominar e eu insisto em cobri-los. Ainda não criei coragem para assumi-los. Portanto, como diria uma grande amiga, acabo de chegar em casa após retocar a inteligência.
Estamos aí, vivendo intensamente, sem pensar muito que, afinal, já passamos do cabo da boa esperança.
Mas se começarmos a pensar muito nisso, não vai dar certo.
Alguns amigos têm nos deixado, aos poucos, o que nos faz refletir que a vida é um raio.
Vamos curtir o que nos resta realizando sonhos que nos ajudarão a atravessar esses anos que estão aí por vir. Vamos rir, vamos realizar, vamos amar, vamos percorrer as redes sociais, vamos encontrar amigos, e jogar conversa fora.
Vamo que vamo.


domingo, 21 de agosto de 2016

OLIMPÍADAS RIO 2016


Quando, há oito anos, o Brasil foi escolhido para ser sede das Olimpíadas 2016 fiquei orgulhosa e feliz.
Depois, quando tomei conhecimento de tantos desmandos, fiquei receosa que nada desse certo.
Obras atrasadas, corrupção, desastres, etc.
O medo do ridículo e a vergonha tomaram conta de mim.
Assisti à abertura que me surpreendeu. Pela simplicidade, pelo espetáculo, pelo recado dado ao mundo.
Aí, meu coração brasileiro sorriu, gritou, torceu, sem pudores. Ufanismo sim, por que não?
Não sei por que temos, às vezes, medo de sermos ufanistas. Os outros países são.
E torci. Pra cada modalidade, pra cada jogo, com todo meu orgulho deste país verde e amarelo que, descobri, continuo amando muito.
Chorei, várias vezes, com o Hino, o mais bonito do mundo, quando, finalmente,  resolveram apresentá-lo sem cortes.
Já estava indignada com aquela versão escolhida, não sei por qual imbecil, e que fazia com que ninguém conseguisse acompanhar cantando.
Agora que as Olimpíadas terminam com um saldo positivo, respiro aliviada por termos conseguido, a duras penas, mostrar ao mundo que o espírito brasileiro é único. Que o Rio de Janeiro é a cidade mais linda do mundo e que mesmo com todas as dificuldades políticas e econômicas e a total falta de apoio aos atletas, esse povo tem garra, perseverança e, sobretudo, ama como eu este país.



sábado, 28 de maio de 2016

VISÃO INFANTIL




Maria está na escola Waldorf e convive com crianças de todos os níveis sociais.
Uma das amiguinhas, de família muito pobre, que será aumentada com o nascimento de um irmãozinho, recebeu a visita de alguns coleguinhas, inclusive Maria e Pedro, que com suas mães foram levar roupinhas e ajuda.
Os adultos ficaram chocados com o que viram: num cômodo que servia de sala, cozinha e quarto, viviam todos. Condições sub-humanas.
No chão estavam alguns pedaços de isopor que faziam as vezes de brinquedos e com o qual Maria e as outras crianças se encantaram e brincaram.
Não havia banheiro. Apenas um buraco no chão.
Quando pensamos numa família pobre imaginamos uma casinha de pau a pique ou mesmo de tijolo sem acabamento,  simples.  Mas não era isso que se via ali. Tábuas colocadas de forma precária com o objetivo de constituir o que seria uma parede.
Voltaram arrasados.
Carol queria conversar com Maria e sentir o que se passara em sua cabecinha.
Quando chegaram em casa perguntou?
- O que você achou da casa da sua amiguinha, Maria?
E Maria, alegremente:

- Adorei, mamãe!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Que tempo bom!

Sábado passado Irene, Janet, Jurema e eu tivemos um encontro muito gostoso num café para matarmos a saudade. Sonia Marney e Eloisa não puderam ir, uma pena.
Estudamos juntas no colegial do Mackenzie há “alguns” anos. Perdemos o contato, nos reencontramos e temos procurado manter esse vínculo.
Janet foi reencontrada agora.
Também temos contato com Bia, Nilza e Regina Lessa que moram fora de São Paulo.
 A Irene, Jurema, Carmem e Bia, estiveram no lançamento do meu livro em dezembro.
A Jurema me contou que esperava que, no meu livro, eu falasse sobre a nossa fase de adolescência.
Resolvi, então, contar aqui sobre o grupinho que formamos no segundo colegial, quando juntamente com a Irene, Janet e mais alguns, passamos do período da tarde para o da manhã.
Ao grupinho composto por Jurema, Ledice, Regina e nia Marney, demos a sigla de JULERESO  (pronuncie-se JULERRESSÔ)
Nossos namorados à época eram Nelson, Paulinho, Didi e André (NEPADIAN)
Parecia um nome francês. Só nós sabíamos o que significava.
Naquela época não havia impulsos telefônicos e costumávamos passar trote. Uma vez, passando um trote por telefone, a Sônia perguntou se o interlocutor já havia lido Julerressô Nepadian, um autor consagrado. E, imaginem, demos muita risada.
A Sônia, que nós chamávamos de Marney, era muito engraçada. Certa vez, ligou para um dos estudantes de engenharia que paquerávamos, como se fosse da secretaria do Mackenzie, dizendo que não haveria aula no próximo dia.
Depois nos arrependemos e ela ligou novamente. Disse que era a esposa do Beluzzo (que era o diretor do colegial do Mackenzie) e que houve um equívoco. Só que ela pronunciou eqüívoco.
Nós caímos na risada.
O cara perguntou quem estava rindo e ela respondeu:
São os Beluzzinhos...
Tempo muito bom aquele que deixou muita saudade. Tanta que fizemos questão de matar com esse encontro de sábado.
Se Deus quiser, haverá muitos outros.

Foto de Beatriz Rivadávia.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A DESCOBERTA DE JÚLIA

Júlia, dez anos, ainda acreditava em Papai Noel. Ou queria acreditar, sabe-se lá.
Passado o Natal, meses depois, descobriu a cartinha que tinha enviado ao bom velhinho. Estava na bolsa da mãe.
Desmontou. Chorou muito. Então ele não existia. Ficou triste.
O raciocínio fez com que ela constatasse que Coelhinho da Páscoa não existia também. Então o coelhinho era eu.
Eu que roía as cenouras que colocávamos no ninho. Um ninho que ela preparava sempre aqui na garagem da minha casa.
Foram tantos anos a fazer o ninho e, o melhor, a descobri-lo no dia seguinte, domingo de Páscoa, cheio de guloseimas e com cenouras roídas por toda parte, terra espalhada indicando o caminho por onde ele teria passado.
E ela vibrava.
Ano passado os pequenos estavam aqui então foram três ninhos e a Carol, rindo muito,aprendeu a roer a cenoura como eu fazia e até adotou a parafernália para fazer lá em Barra Grande.
Mas Júlia veio este ano fazer o ninho. Não queria perder aquele encanto e me deixou uma cartinha que coloco abaixo sem correções:

Não consegui mostrar um coração grande e recortado que ela fez

sexta-feira, 18 de março de 2016

Pedroca, botando as manguinhas de fora


Pedroca está com 2 anos e é muito fofo. (corujice minha? talvez).

Ele entende tudo e fala tudo, não tão bem como Maria falava nessa idade, mas se faz entender.
Adora a irmã e se sente seguro perto dela. Ela, por sua vez, como irmã mais velha o protege.
Maria está fazendo um regime de lactose, para detectar se isso é que lhe dá uma dor na barriga. Ela, muito conformada,  faz o regime direitinho.
Ele percebe tudo.
Outro dia, queria porque queria um tal cobertor. Brigaram pelo cobertor. E ele saiu-se com essa.
- Num pode, num pode porque tem "LEITE"...




domingo, 26 de julho de 2015

Fazendas

                Comecei a usar óculos bem cedo, acho que com uns oito ou nove anos. Dizem que é hereditário. Meu pai era bem míope e minha mãe, um pouco.
 Isso não me atrapalhou, nem sofri bullying. Se me chamavam "quatro olho", eu achava graça e me intitulava assim também. Também não me atrapalhou nas brincadeiras de escola e de rua. Corria, pulava corda, pulava distância, jogava basquete  ( isso sim, é engraçado pois, se hoje tenho 1,55m imaginem naquela época).
 Pois bem, um dia quando eu devia ter uns sete anos,  minha tia Loreto, com quem eu viajava muito, me mostrou várias fazendas.
- Isso tudo é fazenda, tia?
- Sim, Ledice, tudo é fazenda.
 Fazenda, para mim, era tecido. E eu ficava me perguntando por que aqueles tecidos verdes e marrons imensos estavam ali estendidos.
  Somente, depois de adulta fui perceber que eu já deveria ser míope na ocasião.
  Minha miopia começou a atrapalhar quando, adolescente, comecei a me pintar.
  Com dezessete anos, estava bem resolvida a colocar lentes de contato. Uma colega de classe do Mackenzie foi uma das primeiras a usar. Conversei com ela, que me indicou o lugar onde havia mandado fazer.
  Era necessário fazer um teste de adaptação, primeiro num olho só, depois no outro, para verificar se havia rejeição ou alergia. A vontade de tirar os óculos era tanta que fiz tudo direitinho.
 Minhas lentes ficaram prontas no dia do meu baile de formatura. Eu, que deveria começar usando por umas três horas, usei por mais de oito horas e nem senti, tão feliz estava, maquiada e sem óculos.
 Eram lentes acrílicas, com certa rigidez, embora acompanhasse a curva dos olhos. Foram várias as vezes em que as perdi: na rua, em lojas, em casa, em vários lugares. Quando isso acontecia, isolava a área até encontrar. As lentes eram caras e minha mãe havia pago com sacrifício, então eu não podia perder de forma alguma. Depois, tive lentes siliconadas e por último, gelatinosas.
 Mas chegou um momento em que eu tinha que ter, além das lentes, que passei a usar apenas para sair, óculos de perto que colocava sobre elas para ler. Além disso, continuava a usar óculos. Agora de perto e de longe.
Foi quando fui aconselhada pelo oftalmologista a operar a miopia. Com a cirurgia, feita em 1999, passei a enxergar demais. Vejo até uma fileirinha de mini formigas no chão.
O melhor de tudo foi enxergar o relógio de cabeceira. Maravilha!
Hoje uso, apenas, óculos de perto para leitura.
Contei a história das "fazendas" para minha neta, Júlia, que adorou  e hoje, lógico, me amola sempre que viajamos, me mostrando os campos verdes ou marrons das fazendas do caminho.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O CANTO DA CASA

            Sempre gostei de cantar. No Colégio, tínhamos aulas de Canto orfeônico e eu curtia. Não sei precisar quando começamos a ter aulas com o Maestro Italo Izzo, acho que no Ginásio. Ele era demais! Teria uns cinquenta e poucos anos e despertou a minha primeira paixão. O coro que ele formou era harmonioso demais. Ainda me lembro dos arranjos das músicas que cantamos na nossa formatura de ginásio, o Hino Nacional mais bem interpretado de que me recordo.
O Maestro Italo Izzo me entregando o diploma


            Quando cursei o conservatório, também tínhamos um lindo coro e um maestro de ouvido absoluto, extremamente exigente, cujo nome não me vem à mente. 
            Ao frequentar o Clube Paineiras do Morumbi, levando os filhos para praticar esportes, fui convidada, por uma das mães, a fazer parte do coral.  E foi esse o esporte que pratiquei, durante alguns anos, ali no clube. Só parei, quando formamos o grupo musical, Gente Humilde.
            No INSS, fiz parte do coral regido pela Deborah Rossi, maestrina do Coro da Faculdade de Medicina da USP, de talento incrível e de quem sou amiga até hoje.
            Há uns quatro anos, fui convidada a fazer parte de um coral, regido pelo irmão de um amigo do Mauro, o Júlio Battesti, cuja mãe, a Marisa é muito amiga da família da minha nora Ulli. 
            Ele é uma pessoa incrível, de uma generosidade e capacidade musical que, talvez por isso, cercou-se de pessoas também incríveis, que vieram a formar o coral "Canto da Casa". 
            Ensaiamos às quartas-feiras à noite,  quando nos reunimos para cantar, após o quê tomamos um lanche levado cada vez por um dos integrantes. Nesse momento, conversamos, trocamos ideias, combinamos alguma apresentação e nos sentimos muito felizes porque cantar faz muito bem à alma.
Já fizemos algumas apresentações em escolas, hospitais, encontros de corais, missas e eventos. Isso faz com que nos sintamos úteis e felizes, por levar um pouco de alegria através da nossa música.
o Canto da Casa levando alegria a uma escola

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O AMOR NOS TEMPOS DA TERCEIRA IDADE


Depois de tantos anos, Lúcia voltava a Marília, cidade onde passara tantas férias. Deixara em São Paulo, o marido, os filhos e aproveitara o feriado de quarta-feira, emendando com o fim de semana, assim passaria cinco dias na casa de Célia, sua prima. Havia muito que ela insistia para que viesse. E era sempre tão difícil deixar a confecção, a casa, as obrigações.
Mas, andava cansada. Tivera alguns problemas com os funcionários da confecção, que a desgastaram bastante e Flávio insistira para que fosse. Ele não poderia acompanhá-la porque aproveitaria o feriado para adiantar um projeto importante, que teria que apresentar à diretoria da empresa em que trabalhava.
Patrícia, sua filha, cuidaria da confecção. Quanto a isso estava tranqüila. Sabia que podia confiar nela. Apenas ficava preocupada em sobrecarregá-la. Mas, sabia que necessitava daquela paradinha para repor as energias.    
A lembrança da casa de Tia Laura a remetia a tantas recordações, da infância, da juventude, do quintal cheio de frutas.
Ela, os primos, os amigos dos primos, os primos dos primos passavam horas ao pé daquelas árvores, conversando, rindo, chupando mexerica, laranja, comendo goiaba. Ah! Como era boa aquela goiaba branca, que nascia no meio das pedras.
 Chorava sempre quando as férias terminavam. Pensar que só no próximo semestre voltaria, parecia-lhe uma eternidade.
Enquanto o ônibus ia entrando na cidade observava tudo. Estava tão diferente. Com movimento de cidade grande. Custou a reconhecer alguns lugares.
 Célia foi buscá-la na Rodoviária. Ainda bem, porque não saberia chegar mais à casa. Foram sempre muito chegadas. Tinham quase a mesma idade.
No caminho, Célia mostrava, animada, as ruas, as igrejas, a pracinha, o Coreto. Lá estava ele igual. Quanta lembrança!
Ali, na Praça do Coreto, Rui a pedira em namoro. Sabia de cor cada palavra trocada naquele dia. Recordava-se tão bem daquele momento mágico, que a fizera tão feliz. Ele tinha sido seu primeiro amor, primeiro namorado.
Era primo distante de Célia, só que do lado do pai. Também passava férias sempre ali. Morava em Campinas. Era dois anos mais velho que ela.
Em uma das férias, então adolescentes, se descobriram apaixonados.
Ele era tão bonito. E ela, com quinze para dezesseis anos, era insegura. Achava-se sem graça, gorda. Olhava as meninas um pouco mais velhas e as achava tão atraentes.
Tia Laura, mulher jovial e alegre, percebia tudo que acontecia e estava sempre perto, aconselhando, ajudando, tomando conta. A ela devia sua profissão, pois fora quem lhe ensinara as primeiras noções de costura.
- Está com fome ou podemos dar uma volta pela cidade? Célia lhe perguntava.
Só então se deu conta de que estivera com o pensamento tão longe.
- Não, não, podemos dar uma volta pra ver se eu consigo me lembrar. Estou achando tudo tão diferente.
Não conseguia prestar atenção ao que a prima, muito falante, ia contando. Divagara, ao voltar o pensamento àqueles anos tão distantes.
Quando viu, estava diante da casa, que continuava do mesmo jeito.
Foram dias muito agradáveis, que fizeram muito bem a Lúcia. Conversaram muito, recordaram passagens engraçadas, viram fotos daquela época. Dançaram, recordando coreografias, que ensaiavam durante a semana para estarem em forma nos bailinhos de sábado. As duas sempre tinham sido muito alegres e companheiras.
As frutas do quintal, nas mãos de Donana, transformavam-se, inevitavelmente, em doces maravilhosos. Donana estava na casa há mais de quarenta anos.
No sábado, pela manhã, como Célia já havia assumido um compromisso, pegou carona até a Praça do Coreto.
Ficou ali, sentindo a brisa, olhando os passarinhos, que voavam de galho em galho, as crianças, que brincavam. Seu pensamento estava distante.
E, de repente, o viu, a alguns passos dela. Sim, era ele mesmo, de carne e osso, Rui. Sentiu o ar lhe faltar.
Estava igual. Um pouco mais gordo. O tempo tinha sido generoso com ele. O cabelo grisalho o deixava mais charmoso ainda.
Ele também a viu. Reconheceu. E foi se aproximando, sorrindo.
- Você é a Lúcia, não é?  
Sorriu ao mesmo tempo em que balançava a cabeça, afirmativamente.
Parecia uma adolescente. Sentia seu coração bater fortemente e o rubor subir-lhe às faces. Teve dificuldade de responder. Tentava disfarçar. Ele sorria, divertido, certamente percebendo o que ocorria.
Tantas vezes imaginara aquele encontro. Chegou a pensar que morreria sem, jamais, revê-lo. Não costumava perguntar à prima sobre ele. Sabia que ele se casara com uma moça de Marília, mudara-se para São Paulo onde era oftalmologista. Mas, procurava sempre fingir, que ele não lhe interessava.
Por segundos, passaram-lhe pela cabeça vários flashes de quarenta e poucos anos atrás.
Eles adolescentes, cheios de ilusão. Aquela fase melhor da vida em que tudo é lindo. A descoberta do amor. Um amor inocente, do suspiro, da ilusão, mas, possessivo, sem complacência. Preferira romper a aceitar dividi-lo com alguém.
Na verdade, sabia que ele, muito jovem, bonito e desejado por tantas e lindas garotas, estava descobrindo a vida.
Nesse mundinho, ela ocupava um pequenino papel, talvez até importante, porém pra ela era pouco. Desejava exclusividade.
E então, determinada, afastara-se, definitivamente, procurando sufocar o sentimento, que nutria por ele e esforçando-se por apagá-lo definitivamente da memória.
- A gente teve um affair, não teve? - ele se dirigia a ela.
Teve que manter-se firme para não demonstrar toda a emoção, que estava sentindo.
- Faz tanto tempo. (ouviu-se dizer, arrependendo-se imediatamente e sentindo-se uma perfeita idiota).
E ele continuou:
- Eu me lembro de uma reconciliação, na qual tudo parecia indicar, que a gente ficaria junto para sempre.
E ela teve que admitir, que também se recordava daquele momento, e como.
O que a surpreendeu foi saber, que ele também se lembrava.
Achava que aquilo tinha sido importante apenas pra ela.
E Rui estava ali, tão tangível, tão amigável, tão charmoso.
A vida dera voltas. Encontrara o amor de sua vida. AMOR com letra maiúscula, sua alma gêmea, com quem tinha identidade total.
Com Flávio constituiu família, teve duas filhas e um filho, Felipe. Uma família linda, unida, cheia de amor. Um exemplo de união, afetividade, harmonia. Exemplo admirado por todos, que os cercavam. Apenas Renata se casara.
Juntos, passaram por momentos difíceis que, com ajuda mútua, conseguiram superar.
Juntos, passaram tantas alegrias. Momentos indescritíveis, que ficariam registrados para sempre. 
Mas, sentia-se balançada com aquele reencontro. Saber que ele também se recordava daquele tempo.
A volta da adolescência, a retomada dos sentimentos, a ambiguidade.
De um lado, a razão mostrando a realidade, boa, feliz, cheia de emoções.
De outro, o coração querendo pregar-lhe uma peça.
Despedira-se, tentando disfarçar a inquietação, que aquele encontro lhe propiciara.

No domingo, voltou para São Paulo. A viagem pareceu demorar mais do que o normal. O coração teimava em bater descompassadamente. Repetia para si mesma cada uma das palavras trocadas naquela Praça do Coreto.
O tempo, melhor amigo nessas ocasiões, tratou de fazê-la retomar sua vida agitada: trabalho, casa, filhos, marido, enfim.
Às vezes, se encontrava lembrando aquele encontro e as antigas emoções, mas tentava distrair-se para não remexer as velhas feridas.
Alguns anos depois daquele encontro, ele telefonou para a confecção.  
Estava saudoso. Queria saber como ela estava. Conversaram.
Ela procurou parecer natural, embora o coração ameaçasse saltar-lhe. Combinaram de se falar mais.
A princípio, falavam-se esporadicamente.
Passado algum tempo, passaram a se falar mais amiúde.
Ela acostumara-se àqueles papos. Fazia-lhe bem. Falava da família, do trabalho. Ele também lhe contava casos. Falava sobre o trabalho. Sobre os filhos, os netos. Costumava levá-los frequentemente a Marília, onde ainda vivia a família da esposa.
O bom humor e o descomprometimento faziam daqueles momentos um relax.
Passado mais um tempo, ele sugeriu um encontro.
“Que mal haveria num encontro.”
Resoluta, resolveu aceitar.
No dia marcado, lá estava ela em frente ao espelho, tentando disfarçar as marcas, que o tempo lhe impingira.
O encontro foi muito agradável. Conversaram muito. Lembraram-se dos velhos tempos, dos bailinhos, do footing na Praça do Coreto de Marília, da moda, dos cabelos armados das meninas, do cinema, que tinha uma sessão só, onde todos se encontravam, da guerra de pipoca, que muitas vezes fazia o lanterninha botar pra fora o infrator.  Riram muito, recordando-se daqueles momentos.
Tinham pouco tempo. E o tempo passou depressa.
Mas, naquela pouco mais de uma hora o conhecera mais do que nos velhos tempos. Achara-o gentil, divertido, educado, falante e, “como continuava bonito”.
Despediram-se, apressadamente, cada um tomando seu rumo. Voltou à confecção com uma agradável sensação.
Para ele teria sido também um momento prazeroso, tanto que lhe mandou uma mensagem.
Continuaram falando-se por telefone. E, quando ele insinuava a perspectiva de um novo encontro, ela desconversava buscando uma razão qualquer para adiar.
Tinha medo de si mesma, de um envolvimento, de magoar a família tão querida.
 Ele, cavalheiro, respeitava.
No entanto, encontraram-se mais algumas vezes. Sempre rapidamente, mas eram sempre bons aqueles momentos.
Ela deixava claro, para ele, sua felicidade, sua cumplicidade com o marido, sua harmonia familiar.
Mas, essa proximidade mexia com ela. Muitas vezes, se pegava pensando nele. Sentia vontade de pegar o telefone e ligar para não falar nada importante. Apenas ouvi-lo. Sentir-se próxima.
Começou a preocupar-se.  Estava sendo inconsequente. Comportando-se como uma jovem adolescente. Precisava botar um ponto final. Não pretendia viver uma aventura, da qual depois viesse a se arrepender.
Tinha sido sempre tão correta, tão cumpridora de suas obrigações, tão voltada à sua família. E isso incluía principalmente Flávio, sempre presente, adorável, companheiro, querido.
Sentiu que devia, novamente, se afastar. Se, na adolescência, tivera coragem suficiente para isso, não seria agora, na maturidade, que teria qualquer dificuldade.
Determinada, ligou para Rui e comunicou-lhe a decisão. Ele ainda tentou marcar um encontro para conversarem, pessoalmente, mas ela foi irredutível.
Para o amor não há idade. Ele será sempre aquele sentimento, que causa calafrios e proporciona felicidade. Entretanto, algumas vezes, há que se saber distinguir um amor verdadeiro de uma tentativa de resgatar algo mal resolvido no passado.
 Sobretudo, se isso acontece na Terceira Idade.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

O Xinxim de Galinha

Era 1965.
Uma quarta-feira antes da Semana de Páscoa. Eu trabalhava há seis meses no Curso Pandiá Calógeras. Professores e nós, funcionários, fomos convidados para um jantar na casa do Patrão, no caso, meu primo Roberto. Lá fomos nós.
Depois de saborearmos o Xinxim de Galinha e batermos muito papo, meu primo e sua mulher, a Catarina, nos deram uma carona, a mim, ao meu colega, e já tão amigo, Walter e a uma professora.
O Walter sentou-se no meio de nós duas. E, em dado momento em que coloquei o dedo na boca, ele tirou minha mão da boca e ficou segurando.
Fiquei imóvel. 
Disfarçadamente, tirei a mão da dele, mas ele agarrou de novo. E, assim foi até meu primo me deixar em casa.
Nada falamos.
Desci do carro com o coração batendo forte, mas sem saber muito o que estava acontecendo.

Fiquei pensando que quando entrei lá, pra trabalhar, tinha um namorado, que não se conformando com o fato de eu ir trabalhar num lugar onde havia tantos rapazes, acabou terminando o namoro. 
Um dos rapazes frequentadores do Pandiá, que já estava na Faculdade de Economia e Administração da USP, junto com o Walter, começou a me acompanhar até o ponto do ônibus diariamente. E, em dado momento, falou que estávamos namorando (Coisas de 1965).  
Mas, quando percebeu que minhas amigas namoravam pra valer e que minha mãe não me deixava sair sozinha com ele, deu uma desculpa esfarrapada, de que entraria em provas (fazia duas faculdades) e nunca mais apareceu. rsrsrs
Fiquei com raiva, mais pelo descaso do que por qualquer sentimento.

Bem, tudo isso pra explicar o que naquele 14 pra 15 de abril, me passou na cabeça:
"Se o Walter não me telefonar ou aparecer, vou ter que sair do trabalho, pois vou ficar falada..."

Mas, eis que na quinta-feira santa ele me liga e pergunta se pode passar na minha casa. 
É lógico que eu disse que sim.
E ele apareceu com um ovo de Páscoa e me convidou pra dar uma volta.
Lembro até com que roupa eu estava.
Naquele dia começamos nosso namoro, combinando que, se um dos dois chegasse à conclusão que não queria mais continuar, seria honesto e verdadeiro.
Estamos nisso há cinquenta anos. 
Nosso casamento se deu exatos cinco anos depois.







Quem sabe, iremos comemorar saboreando um Xinxim de Galinha. Nem me lembro mais como é.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A VIDA SERIA SEM SENTIDO SE

E o segundo trimestre se inicia, sem nem termos percebido o fim do primeiro. E o que fizemos? Até agora NAAADA.
E lá vem o Contador cobrar os documentos para o Imposto de Renda, ai meu Deus!
Já foi o Carnaval, a Páscoa e o tempo é implacável. Vem correndo, quem quiser que o siga e não perca o trem...
Ainda bem que temos os momentos com as crianças que nos fazem parar, sorrir, curtir e sentir que vale a pena.


Pedroca se divertindo na chuva
(Por alguma razão estão aparecendo videos que não estão ligados ao assunto) 

Maricota se aventurando na piscina

Juju fazendo demonstrações

E, agora na Páscoa, a descoberta do presente do coelhinho, que eles tanto curtem. 
Ritual aqui


o mesmo ritual na Bahia

Isso nos faz sentir que tem valido a pena. E que nós vivemos pra deixar nossas marcas, nossa família, nossa prole. E que nada teria sentido se isso não existisse.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

AGORA O ANO COMEÇA

Finalmente, o ano começa, já era tempo. Tantas idealizações de vida, tantas promessas, tantos desejos, tanta esperança. E lá vamos nós, com coragem, enfrentamento, determinação.
O ano promete não ser o melhor dos últimos tempos. Temos que estar preparados.
Inflação, desgoverno, falta d'água, corrupção, violência, falta de Educação.
Mas, brasileiro é esperançoso, é alegre, é até conformado. E Deus, Deus é brasileiro.
Então vamos lá. Vamos dar o melhor de nós. Vamos dar exemplo, vamos reciclar, vamos ensinar, vamos auxiliar, vamos doar, vamos ser generosos, vamos combater o que está errado. Não nos espelhemos no mal, no covarde, no corrupto, na injustiça. 
De mãos dadas, se Deus ajudar, vamos vencer. A vida continua. Nossos filhos e netos que o digam.
Vamos construir um mundo melhor pra eles.
Feliz 2015!

domingo, 4 de janeiro de 2015

O PRIMEIRO AFILHADO

Eu ia fazer 16 anos quando ele nasceu. O caçula dos priminhos. Me apaixonei de cara. E qual não foi minha alegria quando meus tios me chamaram pra ser sua madrinha, junto com o primo, também José Ricardo, filho do tio Juca. Era uma forma de homenagear minha mãe e meu tio Juca, dois grandes irmãos do tio Jayme, pai do bebê.
Já contei no blog que o tio Jayme, conheceu a tia Maria no meu aniversário e foi amor à primeira vista.
O Zé Ricardo custou pra nascer e pra acalmar meu avô que perguntava de tempos em tempos se  a criança tinha nascido, meu tio resolveu dizer que sim. E meu avô insistia:
- É menino ou menina?
E meu tio respondia:
É menin...
Pois é. O Zé Ricardo cresceu muito próximo de nós. E apesar da diferença de idade sempre fomos muito amigos. Eu casei, vieram meus filhos e ele, sempre junto, era um exemplo para os pequenos. Tornou-se amigo dos meus filhos, que o consideram uma espécie de irmão mais velho.
Chego a pensar que é cármica nossa amizade.
E hoje, 4 de janeiro, é o aniversário desse cara incrível, que adoramos. Não poderia deixar passar em branco.

Zé querido, feliz aniversário e um ano de muita paz a você. Seja muito feliz!

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O RITUAL

Todo dia à tarde, mesma hora, chovesse ou fizesse sol, lá vinha ele.
Magro, boa estatura, cabeleira grisalha e farta, camisa social surrada, calça manchada,que a velha cinta ajudava a manter acima da cintura, trazendo à mão, uma velha maleta executiva.
Teria, talvez, uns 75 anos.
Fingindo seguir em frente, ao chegar às portas fechadas de um bar noturno, cujo forro preto as tornava , providencialmente, um grande espelho, ele, disfarçando, parava.
Olhava para um lado e para o outro, colocava, invariavelmente, a maleta entre as pernas e examinava-se de forma demorada, ajeitando bem os cabelos.
Como toque final, apertava tanto as têmporas, até obter o resultado desejado, que mais parecia um caroço de manga chupado, com leve inclinação para um lado.
Satisfeito, pegava novamente a velha maleta e, atravessando a rua, passo a passo, entrava decidido no supermercado em frente onde, talvez, se encontrasse a razão daquele preparo todo.

sábado, 7 de junho de 2014

1972 - 7 de junho - Quarta-feira

1972 - 7 de junho - Quarta-feira - 7 horas da manhã

Algo me diz que o bebê nascerá hoje. Acordo meio desconfortável e aviso o maridão.
Ele, todo aflito, pergunta como pode ajudar.
O curso de preparação pro parto tinha me ensinado a ficar calma, sem precipitação.
Convenço-o a ir trabalhar normalmente e, como não há telefone em casa, peço que ele avise minha mãe, no seu trabalho. 
Aproveito pra verificar se a mala do bebê está completa e peço pra minha ajudante fazer uma sopinha. Isso também se ensina no tal curso.
E então, após um bom banho, só me resta aguardar a hora de almoço, após o que seguimos pra Maternidade São Paulo pelo caminho tantas vezes ensaiado.
Chego perto de uma e meia e a médica é localizada.
Começa o preparo e as contrações começam a acontecer com um espaço de tempo menor e menor e menor.
Minha mãe chega quase ao mesmo tempo que a gente. Toda corajosa pra assistir ao nascimento do(a) primeiro(a) neto(a). 
E, às 17:40h ele chega, cheio de saúde, pesando 3.460 kg.
E desde esse dia minha vida muda. Sinto a importância daquele momento. Sinto a responsabilidade que passo a ter com aquele ser que depende totalmente de mim.

Hoje, 42 anos depois, sinto que esse acontecimento me enriqueceu,me realizou. Obrigada, meu filho, por você ter dado sentido à minha vida.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

JUJU E AS PRIMEIRAS NOTAS

Juju chegou radiante em casa.
Foi logo pegando o boletim pra nos mostrar.
Tirou A em tudo.
O pai teve até que mostrar a ela que tirar um B ou até um C, não é tão ruim assim.
Ela disse que não queria tirar nota diferente de A.
Mas é uma delícia ver a vontade que ela tem de aprender.
E ninguém precisa mandar ela fazer a lição. É súper responsável.
Está aprendendo a somar e subtrair. E pede pra gente fazer perguntas pra que ela faça as contas de cabeça, e raciocinando.
Tomara continue assim. Bom pra ela e bom pra todos.
Com 8 anos ela lê um texto como muita gente grande não sabe ler. Com entonação perfeita e pontuação correta. E o melhor, adora ler.
Que bom, Juju. Deus permita que você continue com essa vontade de saber e com essa alegria de viver.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Pedro, o caçula

Pedroca está crescendo. E se revela uma grande personalidade.
Simpático, sorridente, independente e boa praça.
Relaciona-se com todo mundo, inclusive com os animais.
Deu um susto. Ficou doentinho. Uma gripe, peito cheio, febre.
Antes mesmo que o remédio chegasse reagiu. Bravamente.
E vai crescendo, com seu dentinho nascido, precocemente, aos 4 meses.
Encantado com a irmã, que, à sua maneira, o acaricia e cuida dele.
Querendo já comer sozinho, para orgulho do pai, que com um aninho não queria mais ajuda pra comer.
Assim vai se desenvolvendo Pedro.
E, a gente aqui vai acompanhando de longe, através do Skype, instagram, facebook.
Mas, a vontade de abraçar e beijar muito é grande, podem crer.

sábado, 8 de março de 2014

OS FILHOS NÃO SÃO DA GENTE

Quando os meninos estavam no colegial eu pensava que eles deveriam fazer um intercâmbio em país de língua inglesa, mas como sempre agi de forma muito democrática (no que acho que errei), respeitei que o Fábio quisesse ir logo prestar vestibular e o Mauro recusasse um intercâmbio porque não poderia trabalhar lá fora.

Assim sendo, optamos por deixá-lo viajar de mochilão nas costas, e hospedando-se em albergues, conforme sugeriu a garota que nos atendeu num desses programas de intercâmbio.
Voltamos pra casa, amadurecendo a ideia e, ao comentar com o Fábio ele reivindicou o direito de viajar junto.
Fiquei mais tranqüila, porque o Mauro era menor de idade e os dois juntos estariam mais seguros.
O Walter topou patrocinar a aventura e então partimos pro roteiro.

Para isso tivemos a assessoria de um casal de amigos que havia viajado o mundo, os saudosos Sylvio e Ione.
Roteiro feito, partimos pra pesquisa de albergues e trens.
Nessa  época não contávamos com a internet, portanto, tivemos que pesquisar no Manual do Albergue da Juventude e no Guia de trens Eurail pass.
A partir da passagem São Paulo/ Madri e do roteiro, que sugeria tantos dias em cada cidade, reservamos os albergues, quase todos, bem como compramos os tikets que davam direito a viajar dois meses pela Europa, bastando pra isso preencher as folhas relativas a cada dia, especificando a cidade.
Cada um levou U$ 3000,00 em traveller check.

Com um amigo, cujos filhos eram chegados em aventuras, arranjamos as Mochilas e organizamos as roupas: 1 calças jeans, 7 camisetas brancas, cuecas, meias, minhocões e camisetas de manga comprida e um bom agasalho pra cada um. Não me recordo mais, mas creio que dois pares de tênis (ou será que foi um só).

Estava tudo reservado, quando o André, amigão do Fábio, contando pra mãe da aventura da viagem, recebeu o incentivo dela pra que fosse também. E ele conseguiu providenciar passaporte, passagem, tickets de trem e reserva nos mesmos albergues, em tempo recorde.
A ida do André deixou o Fábio mais aliviado, já que se sentia responsável pelo Mauro.

Assim, no início de janeiro de 1991, embarcamos os três jovens num vôo da Iberia com destino a Madri.
Tentei reproduzir aqui o roteiro, mas precisei da ajuda do Fábio: Madri, Toledo, Lisboa, com direito a Cascais e Sintra, Sevilha, Málaga, Granada, Barcelona, Mônaco, Lerici (La Spezia), Roma, Florença, Pisa, Veneza e Trieste.


Aqui um parêntese - o André tinha a avó paterna morando em La Spezia e lá foram eles passar uma semana na casa da avozinha querida, onde se deliciaram com os quitutes especialmente feitos pra eles, além de terem suas roupas todas lavadas e colocadas pra secar com a ajuda dos vizinhos.
O Fábio lembrou que quando chegaram, com barba por fazer, e tocaram a campainha, Dona Maria Assunta, fechou a porta assustada para só abrir depois de uma certa insistência do neto, que batia na porta e dizia: - Nonna, sono io....André.
Telaro, em Lerici com a avó do André e postal do albergue de Strasbourg



E depois da Itália, foram a Berna, Interlaken, Viena, Salzburg, Heidelberg, Munique (onde passaram o Carnaval), Bruxelas, Brugges, Amsterdã, indo terminar em Paris. De Paris não queriam mais voltar. Estenderam a volta pra aproveitar um pouco mais.
Granada, Pisa, Salzburg e Florença

Amsterdã, Toledo, Paris e Madri


Foram dois meses em que viveram uma experiência incrível, com aventuras,  medos, traquinagens, passando frio, assustados com a perda do passaporte do Mauro, logo no primeiro dia (depois achado na própria mochila), com viagens noturnas de trem e o confronto com caras estranhos, pagando multa por terem dormido em uma cabine do trem, sem terem pago por isso, enfim. 
E, como não tinham toda essa noção de dinheiro, fizeram muita economia, comendo em bandejões, e comprando lanches em supermercados, tanto que voltaram com dois terços do que levaram em dinheiro.
Chegaram mais gordos (das inúmeras besteiras consumidas), cabeludos e barbudos, mas, tenho certeza de que foi inesquecível. Uma lembrança que vai ficar pra sempre de um período sem cartão de crédito, sem celular e sem as facilidades que hoje temos de comunicação.
Madri, Cascais, Bruges e Barcelona

Fico feliz de, com o Walter, ter proporcionado essa experiência aos dois.
Fico mais feliz ainda por ter esses depoimentos:
Do Fábio: “Muito boa mesmo a experiência. Muito legal o que vocês fizeram pela gente. Não sei se hoje, com a Júlia, eu teria coragem.”
Do Mauro:"Naquela época, sem internet, nos falávamos por telefone. Com a distância, a saudade era maior. Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo longe e sozinhos.  Foi demais. Uma viagem que me fez amadurecer muito, uma oportunidade única. Lembro que quando voltei fiquei diferente alguns dias, consegui olhar o mundo de uma maneira diferente, voltei mais decidido."