sexta-feira, 14 de março de 2014

O WALTER E O GUARDA

Quando o Walter trabalhava na Lintas, numa das viagens de trabalho, ficou hospedado no Hotel Casa Grande, no Guarujá, com o Sylvio Lima e outros publicitários.
Em uma noite resolveram jantar num restaurante mais adiante, na mesma rua da praia.
Por alguma razão o Walter resolveu ir de carro.
Na volta, como estivesse apenas há algumas quadras de distância do hotel, resolveu voltar na contra-mão. A cidade estava mesmo vazia...
Acontece que um guarda estava atento e de plantão.
Abordou o Walter que, além do mais, estava sem a Carteira de Habilitação.
Apesar dos apelos, o guarda obrigou o Walter a ir buscar a Carteira, a pé, enquanto o carro permaneceria ali.
O Walter, puto, teve que voltar a pé pro hotel e ao encontrar o Sylvio que já ia mais à frente contou:
- Um Filho da Puta de um guarda me pegou e me obrigou a vir pegar meus documentos que deixei no hotel.
O Guarda, que o seguia de perto, ouvindo  o xingamento,  ameaçou prendê-lo   por desacato.
E o Sylvio, político e espirituoso intercedeu:

- Ah, seu guarda, não fique bravo não, ele falou Filho da Puta no bom sentido.

sábado, 8 de março de 2014

OS FILHOS NÃO SÃO DA GENTE

Quando os meninos estavam no colegial eu pensava que eles deveriam fazer um intercâmbio em país de língua inglesa, mas como sempre agi de forma muito democrática (no que acho que errei), respeitei que o Fábio quisesse ir logo prestar vestibular e o Mauro recusasse um intercâmbio porque não poderia trabalhar lá fora.

Assim sendo, optamos por deixá-lo viajar de mochilão nas costas, e hospedando-se em albergues, conforme sugeriu a garota que nos atendeu num desses programas de intercâmbio.
Voltamos pra casa, amadurecendo a ideia e, ao comentar com o Fábio ele reivindicou o direito de viajar junto.
Fiquei mais tranqüila, porque o Mauro era menor de idade e os dois juntos estariam mais seguros.
O Walter topou patrocinar a aventura e então partimos pro roteiro.

Para isso tivemos a assessoria de um casal de amigos que havia viajado o mundo, os saudosos Sylvio e Ione.
Roteiro feito, partimos pra pesquisa de albergues e trens.
Nessa  época não contávamos com a internet, portanto, tivemos que pesquisar no Manual do Albergue da Juventude e no Guia de trens Eurail pass.
A partir da passagem São Paulo/ Madri e do roteiro, que sugeria tantos dias em cada cidade, reservamos os albergues, quase todos, bem como compramos os tikets que davam direito a viajar dois meses pela Europa, bastando pra isso preencher as folhas relativas a cada dia, especificando a cidade.
Cada um levou U$ 3000,00 em traveller check.

Com um amigo, cujos filhos eram chegados em aventuras, arranjamos as Mochilas e organizamos as roupas: 1 calças jeans, 7 camisetas brancas, cuecas, meias, minhocões e camisetas de manga comprida e um bom agasalho pra cada um. Não me recordo mais, mas creio que dois pares de tênis (ou será que foi um só).

Estava tudo reservado, quando o André, amigão do Fábio, contando pra mãe da aventura da viagem, recebeu o incentivo dela pra que fosse também. E ele conseguiu providenciar passaporte, passagem, tickets de trem e reserva nos mesmos albergues, em tempo recorde.
A ida do André deixou o Fábio mais aliviado, já que se sentia responsável pelo Mauro.

Assim, no início de janeiro de 1991, embarcamos os três jovens num vôo da Iberia com destino a Madri.
Tentei reproduzir aqui o roteiro, mas precisei da ajuda do Fábio: Madri, Toledo, Lisboa, com direito a Cascais e Sintra, Sevilha, Málaga, Granada, Barcelona, Mônaco, Lerici (La Spezia), Roma, Florença, Pisa, Veneza e Trieste.


Aqui um parêntese - o André tinha a avó paterna morando em La Spezia e lá foram eles passar uma semana na casa da avozinha querida, onde se deliciaram com os quitutes especialmente feitos pra eles, além de terem suas roupas todas lavadas e colocadas pra secar com a ajuda dos vizinhos.
O Fábio lembrou que quando chegaram, com barba por fazer, e tocaram a campainha, Dona Maria Assunta, fechou a porta assustada para só abrir depois de uma certa insistência do neto, que batia na porta e dizia: - Nonna, sono io....André.
Telaro, em Lerici com a avó do André e postal do albergue de Strasbourg



E depois da Itália, foram a Berna, Interlaken, Viena, Salzburg, Heidelberg, Munique (onde passaram o Carnaval), Bruxelas, Brugges, Amsterdã, indo terminar em Paris. De Paris não queriam mais voltar. Estenderam a volta pra aproveitar um pouco mais.
Granada, Pisa, Salzburg e Florença

Amsterdã, Toledo, Paris e Madri


Foram dois meses em que viveram uma experiência incrível, com aventuras,  medos, traquinagens, passando frio, assustados com a perda do passaporte do Mauro, logo no primeiro dia (depois achado na própria mochila), com viagens noturnas de trem e o confronto com caras estranhos, pagando multa por terem dormido em uma cabine do trem, sem terem pago por isso, enfim. 
E, como não tinham toda essa noção de dinheiro, fizeram muita economia, comendo em bandejões, e comprando lanches em supermercados, tanto que voltaram com dois terços do que levaram em dinheiro.
Chegaram mais gordos (das inúmeras besteiras consumidas), cabeludos e barbudos, mas, tenho certeza de que foi inesquecível. Uma lembrança que vai ficar pra sempre de um período sem cartão de crédito, sem celular e sem as facilidades que hoje temos de comunicação.
Madri, Cascais, Bruges e Barcelona

Fico feliz de, com o Walter, ter proporcionado essa experiência aos dois.
Fico mais feliz ainda por ter esses depoimentos:
Do Fábio: “Muito boa mesmo a experiência. Muito legal o que vocês fizeram pela gente. Não sei se hoje, com a Júlia, eu teria coragem.”
Do Mauro:"Naquela época, sem internet, nos falávamos por telefone. Com a distância, a saudade era maior. Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo longe e sozinhos.  Foi demais. Uma viagem que me fez amadurecer muito, uma oportunidade única. Lembro que quando voltei fiquei diferente alguns dias, consegui olhar o mundo de uma maneira diferente, voltei mais decidido."