quinta-feira, 26 de julho de 2018

NETOS

Nesse dia dos avós, rememoro passagens gostosas com esses serzinhos que modificam a vida da gente.
Convivo muito com a mais velha, Júlia 12 anos, minha companheira para passear, conversar, tomar sorvete, jogar buraco, trocar ideias. Aprendo muito com ela.
Depois de ficar uns quinze dias longe voltou me abraçando e dizendo que sentiu minha falta.
Querem coisa melhor?
Se ela sentiu minha falta, imaginem a falta que senti dela...

Nessas férias os pequenos vieram passar uns dias aqui. Como estão espertos! Sabem tudo. 
Maria , seis anos, tudo quer saber. Se estamos conversando sobre algo ela pergunta , quer entender do que se trata e, às vezes, reclama que não está entendendo nada do que estamos falando. Está feliz por aprender a ler na escola Waldorf, onde estuda.  Lá também aprende, cantando, o alemão e, segundo a professora, não por acaso sua mãe, tem a pronúncia correta. Confesso que tenho dificuldade para aprender o idioma.
Ela me emocionou quando estávamos indo pegar a Júlia para ir ao cinema. Comentou que gostava muito da prima. Que a prima era uma fofa e que era muito respeitosa. Deduzi que Júlia a trata muito bem e aceita o que ela fala e faz. 
Na despedida das duas houve lágrimas dos dois lados.

Pedro, 4 anos, está muito engraçadinho, sem corujice. Embora ainda não tenha aulas de alemão, já sabe cantar várias músicas e sempre diz que vai morar na Alemanha.
Registro aqui algumas falas dele, já que delas registrei no meu livro:

a bala que ele gosta é de frutis frutis...
outro dia vendo uma foto minha disse que eu estava mais linda que o infinito...

Outro dia, estávamos na pracinha e um senhor me abordou entregando um cartão para o caso de precisar de cuidador/a. As crianças quiseram saber o que aquilo significava.
A mãe explicou que quando a pessoa fica velhinha e não consegue cozinhar, tomar banho sozinha, se vestir, é preciso contratar um cuidador/a.
Aproveitando que estávamos em frente a uma casa de repouso, mostrou o lugar dizendo que ali viviam alguns idosos que não podiam mais morar sozinhos. Para que entendessem comparou a um orfanato, que eles sabem o que é.
Pedro ficou pensativo e depois disse, muito sério:
- Vovó você não precisa ir para o orfanato. Você sabe cozinhar muito bem... 
Recebi muitos abraços deliciosos dos dois. E mal eles foram embora, já estou com muitas saudades!





sábado, 5 de maio de 2018

BATE-PAPO AO PÉ DO OUVIDO


─ O que você está fazendo, vovó?

─ Estou aqui arrumando a roupa do vovô. Pegue ali na caixa de costura uma linha preta. Vou pregar botão nessa camisa que está no braço da cadeira.

─ Você gosta de costurar, vovó?

─ Pra dizer bem a verdade, não gosto não, mas não posso deixar a roupa do vovô de qualquer jeito. Olha só quanta casa sem botão. Os botões caíram e o vovô nem me avisou.

─ Casa, vovó?

─ É. Esse buraquinho onde prendemos o botão chama-se casa.

─ Que engraçado, eu não sabia...

─ Laurinha, por favor, meu amor, apanhe esse botão que caiu aí no pé da mesa.

─ Pé da mesa, vovó, você fala cada coisa engraçada. Ouvi a campainha tocar, quem será?

─ Vá ver, Laurinha, mas não antes de espiar quem é , pelo olho mágico.

─ É o papai! ─ e Laurinha abriu a porta, dependurando-se no pescoço dele.

─ Oi, meu amor, o que está fazendo? Está com as maçãs do rosto tão rosadinhas...

E ela toda orgulhosa:

─ Estou ajudando a vovó. Ela vai costurar toda essa roupa que está no braço da cadeira. E eu estou aprendendo, sabe, papai?

Ernesto ficou ali sentado ao pé da escada, admirando as duas e pensando com seus botões:

“Que incrível essa ligação entre neta e avó. A diferença de idade entre elas é inexistente. Verdadeira magia que as iguala” ─ e lembrou-se dele mesmo, quando pequeno, e da relação afetiva que tinha com seus avós.

Tentou disfarçar, enxugando uma lágrima indiscreta que insistia em denunciar a emoção que se apoderava dele naquele momento.

─ O que aconteceu, papai, você está chorando?

─ Não querida, acho que entrou um cisco aqui no canto do olho.




quinta-feira, 3 de maio de 2018

SUSTENTANBILIDADE


O tema: Conte o drama de um barqueiro que viu aos poucos sua casa sendo engolida pelo mar. Empregue metáforas. (Conto ou poesia)

SUSTENTABILIDADE

A Ilha era pequena, mas tinha boa estrutura.
Uns viviam de pescar e outros de agricultura.
Mas o mar subiu de nível por conta do aquecimento,
Engoliu todas as casas, causou muito sofrimento.

Pescador, inconformado, tentou lutar contra a água,
que teimava em devastar a cidade que habitava.
Mas a água era implacável. Não tinha negociação.
Uma onda gigantesca cobriu toda a região.

O homem ainda nadou para ao menos se salvar
ajudou outras pessoas que estavam a se afogar.
Foi parar em outras praias, chegando desacordado.
Passou ali toda a noite até que foi encontrado.

Acordou depois de dias sem saber onde é que estava
Sentia-se muito fraco e a todos perguntava:
Como vim parar aqui? O que foi que aconteceu?
Fique calmo, meu amigo, pois você sobreviveu.

Só então ficou sabendo que enfrentou o inimigo
Com toda garra que tinha pra salvar o seu abrigo.
Concluiu que a natureza, ao estar sendo judiada,
Partiu para revidar com uma força redobrada.

Passou a se dedicar salvando o meio ambiente
Começou por ensinar cada um a ser consciente:
Para que nosso planeta seja muito mais saudável
É preciso que ele tenha um crescimento sustentável.

VIVENDO E SE SURPREENDENDO


VIVENDO E SE SURPREENDENDO

Era meu primeiro dia de trabalho. Local e colegas novos, nem imaginava o que teria que fazer, mas estava feliz. Eu pensava que logo conheceria todo mundo e saberia fazer o serviço. Afinal, eu não era burra.
As circunstâncias haviam me obrigado a pedir demissão do lugar que eu adorava e ao qual já estava acostumada e enturmada. Já lá se iam quinze anos.
O concurso público, que não exigia mínimo de idade, fora providencial. Fiz a inscrição, prestei o concurso e fui aprovada.
Ronaldo foi um dos que mais me ajudou. Paciente, detalhista, competente. Passou a ser meu porto seguro.
Ficamos amigos. Eu notava que ele era um pouco afetado, mas atribuía aos anos de seminário que a mãe o fez cursar. Ela o desejava padre.
Mas, contrariando-a ele casou-se e teve três filhas. Esforçado, complementava o salário em outro emprego também de meio período. A mulher, jovem, lecionava e dava aulas particulares. As crianças estudavam perto e contavam com a avó materna que se dispunha a cuidar deles para que os pais pudessem trabalhar.
Ele conseguiu comprar a casa própria num bairro mais popular e levava a vida sem reclamar.
Certo dia, no entanto, queixou-se que o casamento estava perigando.
Vocês trabalham demais. Acho que deveriam fazer uma viagem de fim de semana pra namorarem um pouco. Vocês são muito jovens, merecem curtir mais a vida disse-lhe eu, tentando ajudar.
Ele sorriu, agradecido, pela minha boa intenção.
Alguns meses depois, tentando aliar o trabalho aos filhos, solicitei mudança de horário. Passei a trabalhar no período da tarde. Quando eu chegava, Ronaldo estava de saída.
Ficamos muito tempo sem trocar palavras.
Meses depois, encontrei-o na copa. Estava ótimo, sorridente, bem vestido. Parecia feliz.
Nossa, Ronaldo, que bom te encontrar assim alegre. Vejo que as coisas melhoraram pra você.
E ele, com um brilho diferente nos olhos, me contou:
─ Há quatro meses comecei a fazer terapia com um profissional muito bem recomendado.
─ Que bom ─ eu disse, animada   às vezes falta tão pouco pra gente se encontrar, não? A felicidade está na nossa frente e a gente não percebe. É preciso que alguém de fora  nos ajude.
─ Pois é ─ ele respondeu sorrindo ─ Sabe que acabei me apaixonando pelo meu terapeuta?
A única coisa que consegui falar para não demonstrar o meu espanto, foi:
─ É, é comum o paciente se apaixonar pelo terapeuta...




VIAJANDO DE AVIÃO PELA PRIMEIRA VEZ


VIAJANDO DE AVIÃO PELA PRIMEIRA VEZ

 (uso de catacrese)



Era a primeira vez que eu embarcava num avião. Sentia uma pontada na boca do estômago. Mas não queria dar o braço a torcer.

Olhei pela janelinha. Estava sentado bem em cima da asa do danado. Eu me sentia tão pequenininho diante daquele monstro imponente.

Agora ele começava a se mexer.

“Ai meu Deus!” ─ pensei, apertando bem os olhos, com a intenção de que meu pedido de socorro ficasse só entre mim e o todo Poderoso.

Segurei firme no braço da cadeira. Olhei em volta. Todos calmos.

Será que apenas eu estava apavorado? Estava com o céu da boca ressecado e sabia que minhas maçãs do rosto deviam parecer um pimentão, tão quente eu podia senti-las. Tentava disfarçar para que meus pais não percebessem e meus irmãos não rissem de mim.

Pela janela eu acompanhava cada movimento e vi quando o avião dobrou a pista à esquerda enquanto aquele homenzinho fazia sinais com umas bandeirolas, acho que indicando que ele podia ir.

Tive que me segurar junto ao encosto da cadeira tal a velocidade que o bicho atingiu. Pude ver o nariz do avião empinado para cima. Pronto, estávamos subindo rapidamente. Lá embaixo avistava-se o leito de um rio. Tudo foi ficando pequenino. As nuvens encobriram minha visão.

Mamãe, percebendo meu temor, pegou a minha mão. Abandonei-me àquela proteção, conseguindo me acalmar. Parecia que estávamos parados no ar. Relaxei. Só então senti que minha barriga da perna tinha estado dura como um pau.

Distraí-me com a chegada do carrinho que trazia refrigerantes e barrinhas de cereais.

“Seja o que Deus quiser” ─ pensei, enrolando a manga da camisa.

Respirei fundo e procurei enterrar meus medos para aproveitar a viagem. Afinal, aquela era apenas a primeira etapa.

CONFRONTO DE NARCISOS

Confronto de Narcisos




A notícia de que Kim Jong-Un convidou Donald Trump para um encontro em maio próximo levou-me a uma viagem:
Num ringue, em sumários trajes de Sumô, de um lado o ditador norte-coreano, do outro, o surpreendente Trump, a se enfrentarem numa luta de Narcisos.
Torcidas, identificadas pelos cortes de cabelo no estilo de seus ídolos, se fazem presentes, instigando-os a derrubarem o rival.
Os egos os mantém eretos, mas a necessidade de vencer o inimigo, no menor espaço de tempo, melhor dizendo, em segundos, os transforma em verdadeiros Hércules, com o propósito único de empurrar o adversário para fora do círculo ou para o solo.
Imaginação à parte, vejo esse encontro com certa cautela. Da cabeça de cada um, assim como das fraldas dos bebês, nunca se sabe o que poderá sair.
De qualquer forma, ambos devem conhecer as regras: como no jogo, quem usar de técnica ilegal – ou ‘Kinjite’ – será automaticamente derrotado.




Torço para que o assunto a ser tratado seja o desarmamento nuclear. Em todo caso, o mundo terá que aguardar até que o encontro seja mesmo realizado e disso decorra um esperado tratado de Paz.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

OS PRIMEIROS CARNAVAIS A GENTE NUNCA ESQUECE



Enquanto as baterias das Escolas de Samba explodiam num batuque empolgante, Stella lembrava, nostálgica, dos bailes de Carnaval no prédio do Banco do Brasil, no centro de São Paulo.
Fechava os olhos e podia vislumbrar cada centímetro daquele lugar que, durante tantos anos, foi palco de sua atuação. A mãe caprichava na fantasia e ela se acabava no salão, ao som daquelas marchinhas que tão bem conhecia: Mamãe eu quero, A cabeleira do Zezé, Oh Jardineira, As águas vão rolar...
Quando acabava o carnaval continuava cantarolando, no ritmo do balanço do fundo do quintal. Os adultos diziam que não podia cantar mais. Era quaresma! Mas as músicas não lhe saíam da cabeça.
Como num filme, iam também desfilando em sua mente, os tantos bailes carnavalescos que fizeram parte de sua adolescência e juventude. Ali, naquele cenário, vivia seu dia de bailarina, de havaiana, de holandesa, de princesa à procura de seu príncipe encantado, embalada pelo som mágico da orquestra que, animada, tocava sem parar. Lembrava, como se fosse hoje, da tristeza que invadia aqueles foliões,  quando soavam os últimos acordes: param param param param pam param param pam.
Voltavam para casa suados e cansados, mas felizes. Prontos para voltar no dia seguinte, incansáveis.
“Ai que saudade que eu sinto
dos bailes da minha infância
que os tempos não trazem mais.”

Embora a tela da TV registrasse a alegria do desfile de Carnaval, Stella, de olhos fechados e úmidos, tentava conter a emoção, aflorada pelo ritmo cadenciado, que se confundia com as batidas descompassadas do seu coração.