Quando os meninos estavam no colegial eu pensava que eles
deveriam fazer um intercâmbio em país de língua inglesa, mas como sempre agi de
forma muito democrática (no que acho que errei), respeitei que o Fábio
quisesse ir logo prestar vestibular e o Mauro recusasse um intercâmbio porque
não poderia trabalhar lá fora.
Assim sendo, optamos por deixá-lo viajar de mochilão nas
costas, e hospedando-se em albergues, conforme sugeriu a garota que nos atendeu
num desses programas de intercâmbio.
Voltamos pra casa, amadurecendo a ideia e, ao comentar
com o Fábio ele reivindicou o direito de viajar junto.
Fiquei mais tranqüila, porque o Mauro era menor de idade
e os dois juntos estariam mais seguros.
O Walter topou patrocinar a aventura e então partimos pro
roteiro.
Para isso tivemos a assessoria de um casal de amigos que
havia viajado o mundo, os saudosos Sylvio e Ione.
Roteiro feito, partimos pra pesquisa de albergues e
trens.
Nessa época não
contávamos com a internet, portanto, tivemos que pesquisar no Manual do
Albergue da Juventude e no Guia de trens Eurail pass.
A partir da passagem São Paulo/ Madri e do roteiro, que sugeria
tantos dias em cada cidade, reservamos os albergues, quase todos, bem como
compramos os tikets que davam direito a viajar dois meses pela Europa, bastando
pra isso preencher as folhas relativas a cada dia, especificando a cidade.
Cada um levou U$ 3000,00 em traveller check.
Com um amigo, cujos filhos eram chegados em aventuras,
arranjamos as Mochilas e organizamos as roupas: 1 calças jeans, 7 camisetas
brancas, cuecas, meias, minhocões e camisetas de manga comprida e um bom
agasalho pra cada um. Não me recordo mais, mas creio que dois pares de tênis
(ou será que foi um só).
Estava tudo reservado, quando o André, amigão do Fábio,
contando pra mãe da aventura da viagem, recebeu o incentivo dela pra que fosse
também. E ele conseguiu providenciar passaporte, passagem, tickets de trem e
reserva nos mesmos albergues, em tempo recorde.
A ida do André deixou o Fábio mais aliviado, já que se
sentia responsável pelo Mauro.
Assim, no início de janeiro de 1991, embarcamos os três
jovens num vôo da Iberia com destino a Madri.
Tentei reproduzir aqui o roteiro, mas precisei da ajuda do Fábio: Madri, Toledo, Lisboa, com direito a
Cascais e Sintra, Sevilha, Málaga, Granada, Barcelona, Mônaco, Lerici (La
Spezia), Roma, Florença, Pisa, Veneza e Trieste.
Aqui um parêntese - o André tinha a avó paterna morando em
La Spezia e lá foram eles passar uma semana na casa da avozinha querida, onde
se deliciaram com os quitutes especialmente feitos pra eles, além de terem suas
roupas todas lavadas e colocadas pra secar com a ajuda dos vizinhos.
O Fábio lembrou que quando chegaram, com barba por fazer,
e tocaram a campainha, Dona Maria Assunta, fechou a porta assustada para só
abrir depois de uma certa insistência do neto, que batia na porta e dizia: - Nonna, sono io....André.
| Telaro, em Lerici com a avó do André e postal do albergue de Strasbourg |
E depois da Itália, foram a Berna, Interlaken, Viena,
Salzburg, Heidelberg, Munique (onde passaram o Carnaval), Bruxelas,
Brugges, Amsterdã, indo terminar em Paris. De Paris não queriam mais voltar.
Estenderam a volta pra aproveitar um pouco mais.
Foram dois meses em que viveram uma experiência incrível, com aventuras, medos, traquinagens, passando frio, assustados com a perda do passaporte do Mauro, logo no primeiro dia (depois achado na própria mochila), com viagens noturnas de trem e o confronto com caras estranhos, pagando multa por terem dormido em uma cabine do trem, sem terem pago por isso, enfim.
E, como
não tinham toda essa noção de dinheiro, fizeram muita economia, comendo em
bandejões, e comprando lanches em supermercados, tanto que voltaram com dois
terços do que levaram em dinheiro.
Chegaram mais gordos (das inúmeras besteiras consumidas), cabeludos e barbudos, mas, tenho certeza de que foi inesquecível. Uma lembrança
que vai ficar pra sempre de um período sem cartão de crédito, sem celular e sem
as facilidades que hoje temos de comunicação.
| Madri, Cascais, Bruges e Barcelona |
Fico feliz de, com o Walter, ter proporcionado essa
experiência aos dois.
Fico mais feliz ainda por ter esses depoimentos:
Do Fábio: “Muito boa mesmo a experiência. Muito
legal o que vocês fizeram pela gente. Não sei se hoje, com a Júlia, eu teria
coragem.”
Do Mauro:"Naquela
época, sem internet, nos falávamos por telefone. Com a distância, a saudade era
maior. Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo longe e sozinhos. Foi demais. Uma viagem que me fez amadurecer
muito, uma oportunidade única. Lembro que quando voltei fiquei diferente alguns
dias, consegui olhar o mundo de uma maneira diferente, voltei mais decidido."
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