Comecei
a usar óculos bem cedo, acho que com uns oito ou nove anos. Dizem que é
hereditário. Meu pai era bem míope e minha mãe, um pouco.
Isso não me atrapalhou, nem sofri bullying. Se
me chamavam "quatro olho", eu achava graça e me intitulava assim
também. Também não me atrapalhou nas brincadeiras de escola e de rua. Corria,
pulava corda, pulava distância, jogava basquete
( isso sim, é engraçado pois, se hoje tenho 1,55m imaginem naquela época).
Pois bem, um dia quando eu devia ter uns sete
anos, minha tia Loreto, com quem eu
viajava muito, me mostrou várias fazendas.
-
Isso tudo é fazenda, tia?
-
Sim, Ledice, tudo é fazenda.
Fazenda, para mim, era tecido. E eu ficava me
perguntando por que aqueles tecidos verdes e marrons imensos estavam ali
estendidos.
Somente, depois de adulta fui perceber que eu
já deveria ser míope na ocasião.
Minha miopia começou a atrapalhar quando,
adolescente, comecei a me pintar.
Com dezessete anos, estava bem resolvida a
colocar lentes de contato. Uma colega de classe do Mackenzie foi uma das
primeiras a usar. Conversei com ela, que me indicou o lugar onde havia mandado
fazer.
Era necessário fazer um teste de adaptação,
primeiro num olho só, depois no outro, para verificar se havia rejeição ou
alergia. A vontade de tirar os óculos era tanta que fiz tudo direitinho.
Minhas lentes ficaram prontas no dia do meu
baile de formatura. Eu, que deveria começar usando por umas três horas, usei
por mais de oito horas e nem senti, tão feliz estava, maquiada e sem óculos.
Eram
lentes acrílicas, com certa rigidez, embora acompanhasse a curva dos olhos.
Foram várias as vezes em que as perdi: na rua, em lojas, em casa, em vários
lugares. Quando isso acontecia, isolava a área até encontrar. As lentes eram
caras e minha mãe havia pago com sacrifício, então eu não podia perder de forma
alguma. Depois, tive lentes siliconadas e por último, gelatinosas.
Mas chegou um momento em que eu tinha que
ter, além das lentes, que passei a usar apenas para sair, óculos de perto que
colocava sobre elas para ler. Além disso, continuava a usar óculos. Agora de
perto e de longe.
Foi quando fui aconselhada pelo
oftalmologista a operar a miopia. Com a cirurgia, feita em 1999, passei a
enxergar demais. Vejo até uma fileirinha de mini formigas no chão.
O
melhor de tudo foi enxergar o relógio de cabeceira. Maravilha!
Hoje
uso, apenas, óculos de perto para leitura.
Contei
a história das "fazendas" para minha neta, Júlia, que adorou e hoje, lógico, me amola sempre que viajamos,
me mostrando os campos verdes ou marrons das fazendas do caminho.
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