quinta-feira, 3 de maio de 2018

CONFRONTO DE NARCISOS

Confronto de Narcisos




A notícia de que Kim Jong-Un convidou Donald Trump para um encontro em maio próximo levou-me a uma viagem:
Num ringue, em sumários trajes de Sumô, de um lado o ditador norte-coreano, do outro, o surpreendente Trump, a se enfrentarem numa luta de Narcisos.
Torcidas, identificadas pelos cortes de cabelo no estilo de seus ídolos, se fazem presentes, instigando-os a derrubarem o rival.
Os egos os mantém eretos, mas a necessidade de vencer o inimigo, no menor espaço de tempo, melhor dizendo, em segundos, os transforma em verdadeiros Hércules, com o propósito único de empurrar o adversário para fora do círculo ou para o solo.
Imaginação à parte, vejo esse encontro com certa cautela. Da cabeça de cada um, assim como das fraldas dos bebês, nunca se sabe o que poderá sair.
De qualquer forma, ambos devem conhecer as regras: como no jogo, quem usar de técnica ilegal – ou ‘Kinjite’ – será automaticamente derrotado.




Torço para que o assunto a ser tratado seja o desarmamento nuclear. Em todo caso, o mundo terá que aguardar até que o encontro seja mesmo realizado e disso decorra um esperado tratado de Paz.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

OS PRIMEIROS CARNAVAIS A GENTE NUNCA ESQUECE



Enquanto as baterias das Escolas de Samba explodiam num batuque empolgante, Stella lembrava, nostálgica, dos bailes de Carnaval no prédio do Banco do Brasil, no centro de São Paulo.
Fechava os olhos e podia vislumbrar cada centímetro daquele lugar que, durante tantos anos, foi palco de sua atuação. A mãe caprichava na fantasia e ela se acabava no salão, ao som daquelas marchinhas que tão bem conhecia: Mamãe eu quero, A cabeleira do Zezé, Oh Jardineira, As águas vão rolar...
Quando acabava o carnaval continuava cantarolando, no ritmo do balanço do fundo do quintal. Os adultos diziam que não podia cantar mais. Era quaresma! Mas as músicas não lhe saíam da cabeça.
Como num filme, iam também desfilando em sua mente, os tantos bailes carnavalescos que fizeram parte de sua adolescência e juventude. Ali, naquele cenário, vivia seu dia de bailarina, de havaiana, de holandesa, de princesa à procura de seu príncipe encantado, embalada pelo som mágico da orquestra que, animada, tocava sem parar. Lembrava, como se fosse hoje, da tristeza que invadia aqueles foliões,  quando soavam os últimos acordes: param param param param pam param param pam.
Voltavam para casa suados e cansados, mas felizes. Prontos para voltar no dia seguinte, incansáveis.
“Ai que saudade que eu sinto
dos bailes da minha infância
que os tempos não trazem mais.”

Embora a tela da TV registrasse a alegria do desfile de Carnaval, Stella, de olhos fechados e úmidos, tentava conter a emoção, aflorada pelo ritmo cadenciado, que se confundia com as batidas descompassadas do seu coração. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

MAMÃE, NÃO VÁ!


Como é bom quando a mamãe está em férias. Adoro cada momento que passamos juntas. Em viagem, ou por aqui mesmo, quando ela me leva ao Parque da Água Branca e jogamos peteca. Corro pelo parque sabendo que ela está sempre ali por perto, me protegendo, me dando carinho. Minha maior amiga, como diz meu pai.
Ela não mede esforços pra cuidar de mim e me fazer feliz. Nossa ida para Ribeirão Preto, pra casa do tio Juca, irmão dela, por exemplo, foi pra eu me fortificar. Ela disse que eu estava com anemia.
Não sei muito bem o que é isso, mas deve ser sério. Ela ficou muito preocupada. Disse que iríamos para o interior para que eu tomasse ar puro e comesse coisas saudáveis.
Meu tio e minha tinha Margarida são muito legais. Naquela casa tem galinheiro e eles matam o bicho na hora pra cozinhar no fogão à lenha.
Não gosto de galinha. Mas gostei de peru. Agora eles fazem sempre peru só pra eu comer. Muito bom.
Custo um pouco pra engolir. Sabe, acho muito chato ficar ali na mesa mastigando.
Meu tio fica bravo, mostra um rabo de tatu que ele tem e diz que se eu não comer tudo vai usar o danado.
Acho que ele não tem coragem. Em todo caso, tento mastigar um pouco mais e engolir. Perde-se muito tempo comendo.
Ontem a empregada achou um escorpião. Disse que os escorpiões andam sempre em dupla e ficou procurando o par. Não achou.
Minha mãe foi dormir preocupada. Rezou pra Santa Therezinha do Menino Jesus cuidar de mim.
Quando estávamos dormindo, ouviu uma voz chamando-a:
─ Amelinha! Amelinha!
Levantou-se e foi ver quem a estava chamando. Não havia ninguém.
Arrumou minhas cobertas e verificou se eu estava dormindo.
Pela manhã, a empregada retirou as roupas de cama para lavar e encontrou o escorpião nos meus lençóis.
Mamãe disse que Santa Therezinha ouviu suas preces e me protegeu.
Não sei se é verdade, só sei que passei a rezar à Santa desde então.
Passamos três semanas em Ribeirão. Fiquei corada e engordei. Mamãe ficou mais tranquila. Voltamos a São Paulo porque ela precisava voltar a trabalhar.
Toda vez que ela volta a trabalhar sinto muita falta dela e choro. Vejo lágrimas nos olhos dela também e peço, chorando:
─ Não vá, mamãe, não vá!