terça-feira, 19 de agosto de 2014

O RITUAL

Todo dia à tarde, mesma hora, chovesse ou fizesse sol, lá vinha ele.
Magro, boa estatura, cabeleira grisalha e farta, camisa social surrada, calça manchada,que a velha cinta ajudava a manter acima da cintura, trazendo à mão, uma velha maleta executiva.
Teria, talvez, uns 75 anos.
Fingindo seguir em frente, ao chegar às portas fechadas de um bar noturno, cujo forro preto as tornava , providencialmente, um grande espelho, ele, disfarçando, parava.
Olhava para um lado e para o outro, colocava, invariavelmente, a maleta entre as pernas e examinava-se de forma demorada, ajeitando bem os cabelos.
Como toque final, apertava tanto as têmporas, até obter o resultado desejado, que mais parecia um caroço de manga chupado, com leve inclinação para um lado.
Satisfeito, pegava novamente a velha maleta e, atravessando a rua, passo a passo, entrava decidido no supermercado em frente onde, talvez, se encontrasse a razão daquele preparo todo.

sábado, 7 de junho de 2014

1972 - 7 de junho - Quarta-feira

1972 - 7 de junho - Quarta-feira - 7 horas da manhã

Algo me diz que o bebê nascerá hoje. Acordo meio desconfortável e aviso o maridão.
Ele, todo aflito, pergunta como pode ajudar.
O curso de preparação pro parto tinha me ensinado a ficar calma, sem precipitação.
Convenço-o a ir trabalhar normalmente e, como não há telefone em casa, peço que ele avise minha mãe, no seu trabalho. 
Aproveito pra verificar se a mala do bebê está completa e peço pra minha ajudante fazer uma sopinha. Isso também se ensina no tal curso.
E então, após um bom banho, só me resta aguardar a hora de almoço, após o que seguimos pra Maternidade São Paulo pelo caminho tantas vezes ensaiado.
Chego perto de uma e meia e a médica é localizada.
Começa o preparo e as contrações começam a acontecer com um espaço de tempo menor e menor e menor.
Minha mãe chega quase ao mesmo tempo que a gente. Toda corajosa pra assistir ao nascimento do(a) primeiro(a) neto(a). 
E, às 17:40h ele chega, cheio de saúde, pesando 3.460 kg.
E desde esse dia minha vida muda. Sinto a importância daquele momento. Sinto a responsabilidade que passo a ter com aquele ser que depende totalmente de mim.

Hoje, 42 anos depois, sinto que esse acontecimento me enriqueceu,me realizou. Obrigada, meu filho, por você ter dado sentido à minha vida.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

JUJU E AS PRIMEIRAS NOTAS

Juju chegou radiante em casa.
Foi logo pegando o boletim pra nos mostrar.
Tirou A em tudo.
O pai teve até que mostrar a ela que tirar um B ou até um C, não é tão ruim assim.
Ela disse que não queria tirar nota diferente de A.
Mas é uma delícia ver a vontade que ela tem de aprender.
E ninguém precisa mandar ela fazer a lição. É súper responsável.
Está aprendendo a somar e subtrair. E pede pra gente fazer perguntas pra que ela faça as contas de cabeça, e raciocinando.
Tomara continue assim. Bom pra ela e bom pra todos.
Com 8 anos ela lê um texto como muita gente grande não sabe ler. Com entonação perfeita e pontuação correta. E o melhor, adora ler.
Que bom, Juju. Deus permita que você continue com essa vontade de saber e com essa alegria de viver.