Época de Natal. A
casa ficava toda enfeitada. Na sala, todo ano havia um pinheirinho, comprado na
feira, cheio de bolas coloridas com pequenos pedacinhos de algodão.Mamãe dizia que era para parecer neve.
Eu adorava ver as lojas cheias de brinquedos e
aquele velhinho sentado a receber tantas crianças no colo.
Nos meus seis
pra sete anos, ficava imaginando qual seria o verdadeiro Papai Noel, entre tantos que eu observava nas várias lojas em que mamãe me levava.
Engraçado, me
pareciam diferentes um dos outros. Uns eram até magros.
Papai Noel era
gordo.
Mas, por via das
dúvidas, era melhor falar logo o que eu queria ganhar. Eu não entendia como ele
guardava na cabeça o nome de todas as crianças e os presentes que cada uma
pedia. Afinal ele era velhinho.
A vovó dizia que
estava velhinha e não se lembrava de nada.
Em todo caso, eu
achava aqueles dias uma festa. Mamãe estava sempre com sacolas cheias de
pacotes coloridos. Ia pondo embaixo da árvore e dizia que a gente não podia
mexer.
Eu ficava tão
curiosa, mas meu irmão, que era mais velho que eu, estava sempre por perto pra
não me deixar mexer nos pacotes.
Aqueles dias que
antecediam as festas pareciam demorar tanto a passar. Eu não via a hora de
chegar o dia de Natal.
Os grandes
ficavam falando baixinho e eu nunca conseguia entender o que eles diziam. Se eu
chegava, um olhava pro outro de um jeito tão estranho que eu ficava meio
desconfiada de que estavam falando de mim. Às vezes, brigava com o meu irmão
por achar que ele sabia de que eles estavam falando.
Muitas vezes, papai
me mandava procurar coisas lá na parte de cima da casa só pra me manter
afastada. Eu ia depressa e voltava correndo. E aí eles me pediam outra coisa.
Por que será que
eles me tratavam daquele jeito. Ficava pensando que não era filha deles. Só meu
irmão é que era.
Mas um dia, numa
dessas conversas, ouvi mamãe dizer que tinha colocado bem escondido, no quarto
da Lolita. A Lolita trabalhava lá em casa desde que eu nasci.
Quando cheguei
perto, pra variar, eles desconversaram.
Resolvi que ia
descobrir o segredo daquelas conversas de gente grande.
Fingi que não
tinha ouvido nada, mas assim que cada um foi prum lado, fui pé ante pé até o
quarto da Lolita.
Lá estava ela:
cor de rosa, linda, exatamente como eu queria. A Bicicleta que eu tinha pedido
pro Papai Noel.
Meu coração
batia tão forte que eu até conseguia ouvir.
Não sei quanto
tempo fiquei parada ali, sem saber o que pensar, até que saí correndo e fui
ficar quietinha embaixo do pé de jabuticaba, meu refúgio.
Era isso. Era
esse o segredo que eles escondiam de mim. Então não existia Papai Noel? Quer dizer que papai e mamãe compraram a
Bicicleta que eu queria? Então eu era filha deles sim. E meu irmão sabia de
tudo.
Puxa, eu não
podia falar pra eles que tinha descoberto tudo.
No meu raciocínio
de criança tanta coisa passava pela minha cabeça.
Mamãe não
entendeu porque naquele dia eu estava tão quieta. Nem quis almoçar. Ela punha a
mão na minha testa e perguntava se eu estava sentindo alguma coisa. E eu só
conseguia pensar numa coisa:
“Que pena! Que
pena que Papai Noel não existe.”
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