Comecei a aprender piano quando nem sabia ainda ler direito.
Tinha de cinco pra seis anos.
| A querida dona Nair Lugon. Essa foto foi tirada quando fiz 50 anos. |
A professora, dona Nair, morava na Barão do Bananal, pertinho da nossa casa. E eu
iniciei tocando num pianinho de brinquedo, que ganhei.
Não me lembro muito dessa época. Só sei que ia estudar lá na
casa da professora.
Quando eu tinha 6 anos fomos morar na rua Cajaíba, também na Pompéia.
Continuei indo estudar todos os dias na casa da professora.
Andava umas 6 quadras pra ir e mais 6 pra voltar. Ia sozinha, como, aliás, ia
sozinha pro colégio Sagrado Coração de Jesus, onde estudava.
Hoje, fico imaginando que incrível isso. Uma criança andava
pra baixo e pra cima sozinha.
Fui gostando de aprender piano e tinha jeito pra coisa. Logo
estava tocando bem. Tinha facilidade, inclusive pra decorar.
Passei a participar das apresentações que dona Nair fazia
anualmente, sempre tocando impecavelmente.
Anualmente, ela me levava para fazer uma prova com uma
professora muito exigente, Dona Rafaella, que depois veio a ser minha
professora no Conservatório.
Somente quando eu tinha uns 12 anos, meus pais alugaram um
piano, porque eu já necessitava de estudar mais horas por dia.
Até que, em 58 ou 59, meus pais, ajudados pela minha madrinha
compraram um piano alemão, cuja venda foi intermediada pela minha professora. Hoje, ele está desafinado, por falta de uso.
Em 1960, prestei exame, e passei, para o Instituto Musical de
São Paulo, que ficava na rua dos Estudantes na Liberdade.
Lá freqüentei as aulas de História da Arte, Harmonia, Canto
Coral, Solfejo, além das aulas de piano, com dona Rafaella. Acho que, com ela, aprendi a iniciar a leitura de uma partitura e depois colocar a interpretação e
a técnica.
Ia todos os dias de ônibus até a Pça. do Patriarca e de lá
ia a pé até a Liberdade. Estudava à
tarde, já que pela manhã estava no Mackenzie, onde cursava o clássico.
Paralelamente, eu tirava muitas melodias de ouvido. A princípio,
dona Nair não gostava muito, mas depois viu que era impossível barrar essa
minha aptidão e até deixou que eu tocasse em uma apresentação que ela
organizou, no auditório do colégio Sagrado Coração, uma das músicas que eu
havia tirado de ouvido.
Naquela época, eu não tinha nenhuma inibição. Era ver um
piano e começar a tocar. Assim foi em um clube, quando fui acompanhar uma amiga
que participava do concurso de Miss Objetiva, ou em bares, restaurantes, casa
de amigos, enfim. Outro dia, a minha amiga Adélia disse que o marido dela, o Serafim,
lembrava-se de eu ter tocado piano em São Vicente, num bar. Eu não me recordava
disso.
No Instituto Musical, quem cursava o 9º ano de piano,
participava de um concurso, chamado PENEIRA, que escolhia quem tocaria na festa
de formatura. Para isso, era necessário que o participante obtivesse, no mínimo,
nota 9.
Dona Rafaela queria que eu tocasse a quatro mãos, com a Silvia Bóger, a Dança Húngara nº 5 de Brahms.
Nós, entretanto, achávamos que tínhamos capacidade para
tocar a Rapsódia Húngara de Liszt, que julgávamos ser mais impactante, para uma
apresentação de formatura.
| Silvia Bóger e eu muito compenetradas tocando a Rapsódia Húngara sob o olhar atento da Dona Rafaella |
Tivemos que travar uma batalha com ela. A Silvia morava em Santo André e eu em São Paulo, no
Sumaré. Isso não impediu que nos encontrássemos para ensaiar juntas a Rapsódia.
E, tanto ensaiamos, que ao apresentarmos essa peça na Peneira, fomos classificadas
para apresentá-la na formatura.
Dona Rafaella foi obrigada a aceitar nossa vitória, o que nos
fez aprender que querer é poder.