quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SECRETÁRIAS DO LAR


OU SE PREFERIREM, DOMÉSTICAS

Durante esses anos todos colecionei alguns ‘causos’ que envolveram pessoas que trabalharam como doméstica em casa, na casa dos meus pais, dos meus avós, por entender que,futuramente, poderia escrever a respeito.
Não seguirei a cronologia dos fatos, mas contarei conforme os mesmos vierem à lembrança.

1 - Uma vela na TV

Eu tinha uma ajudante jovem que dormia em casa. O quarto dela ficava ao lado da cozinha e perto do tanque.
Certa noite faltou luz em casa e ela simplesmente pegou uma vela e colocou-a sobre a televisão do seu quarto.
Dormiu.
Acordou com a TV pegando fogo.
Não sei com que pano pegou a televisão e colocou-a no tanque, abrindo a torneira.
Quando acordamos, no dia seguinte, vimos apenas o esqueleto do que fora,um dia,um aparelho de TV, comprado com sacrifício quando nos casamos e que tínhamos colocado no quarto de empregada, para que ela tivesse uma distração.
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2 - O vício de Cândida

Quando eu ainda era solteira, tivemos uma empregada que havia sido criada pela tia de uma amiga da minha mãe.
Era uma moça culta. Inclusive sabia falar francês.
Fez um péssimo casamento, o marido bebia muito e ensinou-a a beber.
Era muito feia. Mas caprichosa e eficiente, quando sóbria.
Fazia um purê de batatas, que não consigo esquecer de tão cremoso e gostoso.
Minha mãe começou a perceber algo estranho no comportamento dela até que descobriu uma garrafinha de guaraná debaixo da cama dela com cheiro de pinga.
Conversou com ela. Deu outra oportunidade e ela jurou que não beberia nem mais um gole.
Mas, a gente sabe que vício é vício.
Foram várias as vezes que chegávamos em casa, eu da escola, meus pais do trabalho, e encontrávamos tudo por fazer. Pia cheia de louça, casa em desordem.
Minha mãe deu várias oportunidades a ela. Tinha pena. Ela tinha dois filhos adolescentes, que viviam com a pessoa que a criou.
Certo dia de chuva, cheguei da escola e, como estava com os pés muito molhados, pedi pra ela pegar um chinelo no meu quarto, enquanto eu tirava os sapatos e sacudia o guarda-chuva.
Ela entrou pro meu quarto e não voltava mais.
Resolvi entrar e ver o que estava acontecendo.
Ela estava com a cabeça encostada na porta do meu quarto, absolutamente, sem condições de andar, falar ou pensar.
Sugeri que ela fosse pro quarto dela e comecei a arrumar a bagunça da casa. Louça por lavar, quartos desarrumados, me pondo a fazer o jantar.
E quando minha mãe chegou,  contei  a ela o que havia acontecido.Chegamos à conclusão que não dava mais.
Mamãe teve que dispensá-la.
Num sábado, quando eu estava almoçando, na cozinha, ela veio pegar as coisas dela.
Nós tínhamos percebido que, pra vencer a timidez, ela necessitava de uns goles.
Deve, antes, ter passado pelo bar, porque chegou toda corajosa, me encarando, deu um rodopio e falou pra mim:
- Amiga da onça, hein?!?!?!  
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3 - Neide, a atriz

A Neide era uma jovem bonita, inteligente, sabia cozinhar. Fazia uma maionese que o Fábio, pequenininho, adorava. Colecionava posters de artistas e cantores, os quais pregava nas paredes do quarto.
Quando foi contratada, mais ou menos em 1976,  me disse que toda tarde de quarta-feira teria que  visitar o irmão, hospitalizado no Hospital das Clínicas.
Então isso ficou acertado.
Certa quarta-feira, eu ia receber um casal de amigos pro jantar e quando ela saiu pedi que não demorasse, porque eu ainda teria que ir ao açougue buscar a carne para fazer um ‘strogonoff’, prato muito em moda, à época.
Mas a hora foi passando e nada dela chegar. Tive que pedir à vizinha pra ficar um pouco com os meninos para eu poder ir ao açougue, a pé.
Vendo que teria que contar comigo mesma, cheguei em casa e me pus a preparar o jantar: cortar a carne, descascar as batatas para fritar e fazer o arroz, enquanto cuidava dos meninos.
As visitas chegaram e, enquanto o Walter fazia as honras da casa, eu preparava o jantar, ao mesmo tempo que cuidava das crianças.
Quando a Neide chegou, já bem tarde, fui ver o que tinha acontecido e ela se pôs a chorar copiosamente e me contou que o irmão falecera.
No dia seguinte ela teria que ir a Minas Gerais para dar a notícia, pessoalmente, à mãe.
Fiquei com muita pena. Claro que não fiz objeção dela viajar.
Dias depois, a empregada da minha mãe me contou que ficou sabendo que a Neide tinha ido pro Rio de Janeiro.
Acontece que  ela não tinha nenhum irmão. Nas tardes de 4ª feira ela fazia figuração nos programas de auditório da TV Tupi, no Sumaré e, por alguma razão, foi convidada pra fazer parte de alguma caravana que iria para o Rio de Janeiro.
Quando ela voltou, depois de quase uma semana, eu estava com as contas dela prontas e a fechadura do portão trocada.
Uma coisa não posso negar. Ela era uma verdadeira artista. Conseguiu nos enganar direitinho.
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4 - Deja e seu mal-estar

A Deja era prima da empregada de uma amiga.
Alta, magra, divertida. Os meninos gostavam dela.
Na época dela o Walter e eu viajamos por um mês e as crianças ficaram com a Deja e as avós.
Quando voltamos da viagem, minha sogra me falou que notava algo estranho nela. Uns enjoos, uns frequentes mal-estares.
Tentei conversar com ela pra descobrir o que estava acontecendo, mas ela não se abriu comigo.
Um belo dia, ela começou a passar mal em casa. Liguei pra um amigo médico, contei de nossas suspeitas e ele me aconselhou a ir ao Pronto Socorro Municipal da Lapa.
Passamos horas lá. Depois ela foi transportada de ambulância para o Amparo Maternal.
Liguei no dia seguinte para ver como ela estava e fui informada que ela estava bem, mas a criança apresentava um problema.
Achei que havia um mal-entendido. Que criança. Não havia barriga nenhuma, onde estava essa criança. Mas eles me confirmaram que ela tinha tido alta e que eu podia ir buscá-la, embora a criança fosse permanecer lá, por necessitar de cuidados médicos.
Lá fui eu pro Amparo Maternal. Trouxe a Deja, que chorava muito. Cuidei dela.
Após alguns dias, ligaram do hospital avisando que a nenê havia falecido.
Jamais esquecerei daquela cena. Ela e eu, seguindo um caixãozinho branco, até o cemitério de Vila Formosa, com aquela criança que, talvez por ter sido tão escondida, não teve forças pra viver. A família dela nunca ficou sabendo do ocorrido e, por sentir-se envergonhada, ela pediu demissão. 
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4 - Quiqui, a eterna criança

A Quiqui trabalhou conosco um bom tempo. Tinha um desenvolvimento psicológico de criança, embora tivesse quase 40 anos. Pernambucana, passou muita fome quando criança. A mãe abandonou os filhos e o pai. A nova mulher do pai judiava dela.
Ela contava, que quando chegava em casa, depois de trabalhar na lavoura o dia todo, comia apenas um prato de feijão, que a madrasta guardava pra ela, no forno.
Tinha rompantes de raiva, de tristeza, intercalados com momentos tranquilos e de veneração por mim.
Não podia deixar de tomar os medicamentos receitados pelo psiquiatra.
Num Natal, um primo meu vestiu-se de Papai-Noel. Ela até ajudou ele a se vestir, mas na hora que ele apareceu pras crianças, ela realizou sua fantasia. Naquele momento,  acreditou, ou quis acreditar, que aquilo estava acontecendo de verdade. 
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5 - A ajudante de enfermagem

Quando minha mãe teve um AVC, voltou pra minha casa numa cadeira de rodas. Depois com fisioterapia e acompanhamento médico feito no SESI, voltou lentamente a caminhar.
Tive que arrumar uma ajudante de enfermagem pra cuidar dela. Não me recordo o nome, mas era uma jovem, bonitinha, que cumpria, razoavelmente, o papel de cuidadora.
Não sei dizer onde foi preparada pra isso, mas achava que devia contar histórias infantis pra minha mãe, que deixava ela contar pra passar o tempo.
Numa véspera de feriado prolongado, ela, muito gentilmente, se ofereceu pra ajudar a empregada na limpeza da casa.
O Fábio havia recebido, orgulhoso,  seu primeiro salário como estagiário, guardando-o todo na gaveta do guarda-roupa.
Ela ajudou tanto no serviço da casa que terminando tudo que devia com certa antecedência, pediu pra sair mais cedo.
O Fábio, ao chegar, mais cedo e com viagem marcada, deu pela falta de todo seu salário.
Cheguei a ir a uma delegacia, mas resolvi não denunciá-la.
Ela ainda veio trabalhar após o feriado. Eu, que já estava com as contas dela prontas,  apresentei o recibo que ela se recusou a assinar.
Dia seguinte ligou-me um “advogado”, me ameaçando e dizendo que eu não estava fazendo as contas corretamente.
Encarei o homem e disse que estava me segurando para não denunciá-la na delegacia e que ela sabia por quê.
Diante disso, ela resolveu assinar tudo direitinho na presença das duas testemunhas que chamei: meu vizinho e meu cunhado.

A história não acaba aí.
Como o Walter recebia muitas revistas, como publicitário, nós distribuíamos as revistas para mãe, sogra, cunhada, prima, enfim. Costumávamos deixar essas revistas na área de serviço.
Tempos depois, lendo uma dessas revistas, minha cunhada encontrou alguns dólares ali dentro.
Deduziu, na hora, que alguém havia escondido ali.
Nós guardávamos uns dólares, sobra de viagens, num copo bico de jaca, que ficava num barzinho que havia na copa.
Concluímos, então, que eles foram guardados ali para fazer companhia ao salário do Fábio, mas como foi despedida, não deu tempo dela levar. 
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6 - Lídia e o pós operatório

Uma das empregadas domésticas, que tivemos, era uma negra muito bonita, mas tinha um defeito grande em uma das pernas, que a fazia mancar bastante.
Em consulta no Hospital das Clínicas foi verificado que seria caso de cirurgia para uma recuperação completa.
Foi internada nas Clínicas e assim que foi liberada a visita, após a cirurgia, eu fui visitá-la algumas vezes.
Aproveitava para ajudar as companheiras de enfermaria que necessitavam de ajuda.
Depois de uns vinte e poucos dias a ambulância trouxe-a para minha casa, engessada desde a cintura.
Eu a servia no café da manhã, almoço e jantar.
Ela tinha uma prima que a visitava sempre, mas não tirava um prato do quarto pra ajudar.
Era uma época em que as crianças eram pequenas e necessitavam de cuidados permanentes.
Nas vezes em que ela teve que retornar ao hospital, consegui com uma vizinha que tinha uma perua, carona pra levá-la na consulta.
As vizinhas ajudavam também a carregá-la e colocá-la no carro.
Nós a levávamos e a ambulância trazia de volta.
Cheguei a ficar doente, tal a correria a que fui submetida.
Quando ela tirou o gesso maior, reduzido apenas para a perna, começou a ajudar a descascar uma batata, cortar um legume, atividades que podia fazer sentada.
Quando finalmente tirou o gesso todo, após uns quatro meses, passou a andar quase normalmente. Aí, ela,um dia, me informou que iria embora.
Sem comentários. 
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7 - As inesquecíveis

Não poderia  deixar de registrar aqui, que tivemos duas pessoas das quais jamais esqueceremos
A Elvira, (na verdade Alzira), baiana, casada com o Valmir, veio trabalhar na casa da minha mãe em 1969 e foi muito boa. Sabia trabalhar bem, fazia uma comidinha deliciosa, acompanhou minha vida desde que casei, o nascimento dos meus filhos, que ela amava muito e esteve sempre pronta a nos ajudar no que fosse preciso.
Ela tinha vergonha de dizer que era analfabeta. Guardava as receitas na cabeça. Me chamava de Aledice, acho que porque minha mãe, como boa paulista, dizia: A Ledice fez isso, a Ledice fez aquilo.
Pena que o Valmir, que era esquisofrênico, fez ela ir pra Itabuna, vendeu tudo que tinham, gastou toda a poupança que ela conseguira juntar,  pra iniciar uma vida lá, cheia de ilusões e privações.
Ela faleceu depois de ficar muito tempo doente. Querida Elvira, que saudade.
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A outra pessoa muito querida que veio pra minha casa com 17 anos foi a Raquel.
Admiro muito a família dela. Todos responsáveis, honestos, trabalhadores.
Ficou fazendo parte da família. Protegia o Mauro, quando ele aprontava alguma coisa, escondendo de mim.
Estudou no Rainha da Paz e no Santa Cruz, onde se formou no 2º grau. Saiu daqui depois de 13 anos, para abrir um salão de beleza.
Casou-se com um cara muito legal, o Eduardo e hoje eles têm uma filhinha, a Maria Eduarda, uma fofa.
Eles merecem ser muito felizes.  E eu torço por eles.
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Segue abaixo o que o Clovis, nosso amigo, mandou pra eu colocar aqui no blog.

"CERTA OCASIÃO QUE ALMOÇAVA NA SUA CASA E A RAQUEL FAZIA AQUELES ALMOÇOS CAPRICHADOS, O MAURO DESCEU COM CARA DE SONO E VEIO ALMOÇAR CONOSCO. 
QUANDO  VIU A MESA POSTA, ELE ME CHAMOU E DISSE:  
-  CLOVÃO VC PODERIA VIR MAIS VEZES ALMOÇAR AQUI;
 EU RESPONDI:
- VENHO NOS IMPOSTOS DE RENDA E ALGUMAS OUTRAS VEZES,  MAS POR QUE?
 - É QUE A RAQUEL CAPRICHA QUANDO VC VEM. VEM  MAIS VEZES,  VEM."






Um comentário:

  1. Dona Lê, adorei seu blog, a Raquel e Duda
    mandam beijinhos.
    Edu

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