sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Do blog GENERACIÓN Y de Yoani Sánchez

Sigo o blog da cubana Yoani Sanchez, a quem admiro profundamente por sua coragem. Vejam o que ela diz sobre "Wikileaks(*)"

Wikileaks e os arquivos vazios

wikileaks1
"Faz várias semanas, numa dessas reflexões tediosas que são lidas no noticiário, escutei falar de Wikileaks. Já sei que parece incrível que uma blogueira, alguém que usa a web como caminho de expressão, não conhecesse este sítio de revelações há algum tempo. Porém nada é de se estranhar nesta “Ilha dos desconectados”, nem sequer que nos inteiremos com anos de atraso sobre o que tem sido tema de discussões no resto do mundo. Recordo que aquela primeira menção ao sítio de Julian Assange em nossos meios oficiais vinha acompanhada de certa cumplicidade da parte dos articulistas, de um cerne de riso antecipado pelo dano que a publicação de documentos classificados poderia causar ao governo norte-americano. Contudo, na medida em que o nome de Cuba começou a aparecer junto aos informes de ingerência na Venezuela e a testemunhos de coação contra seu próprio pessoal médico, o entusiasmo do Granma transformou-se em aborrecimento e os aplausos iniciais deram lugar ao silêncio. Nem sequer o Líder Máximo voltou a fazer referência ao Wikileaks.
O acontecido nos últimos dias vai mudar de maneira significativa o modo com que os governos manejam a informação e também os caminhos através dos quais os cidadãos fazem com ela. Porém também – não nos enganemos - fará com que os regimes que se baseiam no silêncio e na falta de transparência reforcem a proteção dos seus segredos ou evitem colocá-los por escrito. Enquanto saem à luz mensagens, memorandos e correspondência entre sedes diplomáticas e departamentos de estado, os autoritários de todos os rincões estão tomando nota, estão aprendendo a não deixar registros de suas ordens de calar, reprimir ou matar. Esta lição já está sendo posta em prática desde há décadas; se não acreditam em mim procurem nesses arquivos cubanos que foram desclassificados algum dia, para ver se aparece o nome de quem decidiu fuzilar três homens que seqüestraram uma embarcação para emigrar em 2003. Onde está o papel que confirma a pressão psicológica que obrigou o poeta Heberto Padilla a fazer um mea culpa que, todavia, ainda deve pesar na consciência de alguns. Em qual gaveta, estante ou arquivo se guarda a assinatura de quem mandou afundar o rebocador 13 de março, onde morreram mulheres e meninos jogados ao mar pelo jorro de água de uma lancha guarda-costas?
São tantos que não deixam registros, que têm uma cultura ágrafa da repressão e possuem incineradoras de papel que fumegam todo dia; chefes que não precisam colocar nada sobre a tinta reveladora da história, para quem basta arquear as sobrancelhas, levantar o indicador, sussurrar ao ouvido uma pena de morte, uma batalha na planície africana, uma convocatória para insultar e empurrar um grupo de mulheres vestidas de branco. Se para alguns deles surgir um Wikileaks local, lançariam contra este as penalidades máximas, os castigos mais exemplares, sem se preocuparem sequer em fabricar para os seus organizadores um processo por “violação” ou por “sacrifício de gado vacum”. Sabem que “ver dá crédito” e por isso cuidam para que não haja material para revelações surpreendentes, para que nunca seja visível a trama real do seu poder absoluto."
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Net
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(*) WikiLeaks é uma organização transnacional sem fins lucrativos, sediada na Suécia, que publica, em seu site, posts de fontes anônimas, documentos, fotos e informações confidenciais, vazadas de governos ou empresas, sobre assuntos sensíveis.
Em abril de 2010, o site publicou um vídeo mostrando um helicóptero Apache dos Estados Unidos, no contexto da ocupação do Iraque, matando pelo menos 12 pessoas - dentre as quais dois jornalistas da agência de notícias Reuters - durante um ataque a Bagdá, em 2007. O vídeo (Collateral Murder) é uma das mais notáveis publicações do site. Outro documento polêmico mostrado pelo site é a cópia de um manual de instruções para tratamento de prisioneiros na prisão militar norte-americana de Guantánamo, em Cuba.(v. wikipedia)

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