quinta-feira, 26 de julho de 2018

NETOS

Nesse dia dos avós, rememoro passagens gostosas com esses serzinhos que modificam a vida da gente.
Convivo muito com a mais velha, Júlia 12 anos, minha companheira para passear, conversar, tomar sorvete, jogar buraco, trocar ideias. Aprendo muito com ela.
Depois de ficar uns quinze dias longe voltou me abraçando e dizendo que sentiu minha falta.
Querem coisa melhor?
Se ela sentiu minha falta, imaginem a falta que senti dela...

Nessas férias os pequenos vieram passar uns dias aqui. Como estão espertos! Sabem tudo. 
Maria , seis anos, tudo quer saber. Se estamos conversando sobre algo ela pergunta , quer entender do que se trata e, às vezes, reclama que não está entendendo nada do que estamos falando. Está feliz por aprender a ler na escola Waldorf, onde estuda.  Lá também aprende, cantando, o alemão e, segundo a professora, não por acaso sua mãe, tem a pronúncia correta. Confesso que tenho dificuldade para aprender o idioma.
Ela me emocionou quando estávamos indo pegar a Júlia para ir ao cinema. Comentou que gostava muito da prima. Que a prima era uma fofa e que era muito respeitosa. Deduzi que Júlia a trata muito bem e aceita o que ela fala e faz. 
Na despedida das duas houve lágrimas dos dois lados.

Pedro, 4 anos, está muito engraçadinho, sem corujice. Embora ainda não tenha aulas de alemão, já sabe cantar várias músicas e sempre diz que vai morar na Alemanha.
Registro aqui algumas falas dele, já que delas registrei no meu livro:

a bala que ele gosta é de frutis frutis...
outro dia vendo uma foto minha disse que eu estava mais linda que o infinito...

Outro dia, estávamos na pracinha e um senhor me abordou entregando um cartão para o caso de precisar de cuidador/a. As crianças quiseram saber o que aquilo significava.
A mãe explicou que quando a pessoa fica velhinha e não consegue cozinhar, tomar banho sozinha, se vestir, é preciso contratar um cuidador/a.
Aproveitando que estávamos em frente a uma casa de repouso, mostrou o lugar dizendo que ali viviam alguns idosos que não podiam mais morar sozinhos. Para que entendessem comparou a um orfanato, que eles sabem o que é.
Pedro ficou pensativo e depois disse, muito sério:
- Vovó você não precisa ir para o orfanato. Você sabe cozinhar muito bem... 
Recebi muitos abraços deliciosos dos dois. E mal eles foram embora, já estou com muitas saudades!





sábado, 5 de maio de 2018

BATE-PAPO AO PÉ DO OUVIDO


─ O que você está fazendo, vovó?

─ Estou aqui arrumando a roupa do vovô. Pegue ali na caixa de costura uma linha preta. Vou pregar botão nessa camisa que está no braço da cadeira.

─ Você gosta de costurar, vovó?

─ Pra dizer bem a verdade, não gosto não, mas não posso deixar a roupa do vovô de qualquer jeito. Olha só quanta casa sem botão. Os botões caíram e o vovô nem me avisou.

─ Casa, vovó?

─ É. Esse buraquinho onde prendemos o botão chama-se casa.

─ Que engraçado, eu não sabia...

─ Laurinha, por favor, meu amor, apanhe esse botão que caiu aí no pé da mesa.

─ Pé da mesa, vovó, você fala cada coisa engraçada. Ouvi a campainha tocar, quem será?

─ Vá ver, Laurinha, mas não antes de espiar quem é , pelo olho mágico.

─ É o papai! ─ e Laurinha abriu a porta, dependurando-se no pescoço dele.

─ Oi, meu amor, o que está fazendo? Está com as maçãs do rosto tão rosadinhas...

E ela toda orgulhosa:

─ Estou ajudando a vovó. Ela vai costurar toda essa roupa que está no braço da cadeira. E eu estou aprendendo, sabe, papai?

Ernesto ficou ali sentado ao pé da escada, admirando as duas e pensando com seus botões:

“Que incrível essa ligação entre neta e avó. A diferença de idade entre elas é inexistente. Verdadeira magia que as iguala” ─ e lembrou-se dele mesmo, quando pequeno, e da relação afetiva que tinha com seus avós.

Tentou disfarçar, enxugando uma lágrima indiscreta que insistia em denunciar a emoção que se apoderava dele naquele momento.

─ O que aconteceu, papai, você está chorando?

─ Não querida, acho que entrou um cisco aqui no canto do olho.




quinta-feira, 3 de maio de 2018

SUSTENTANBILIDADE


O tema: Conte o drama de um barqueiro que viu aos poucos sua casa sendo engolida pelo mar. Empregue metáforas. (Conto ou poesia)

SUSTENTABILIDADE

A Ilha era pequena, mas tinha boa estrutura.
Uns viviam de pescar e outros de agricultura.
Mas o mar subiu de nível por conta do aquecimento,
Engoliu todas as casas, causou muito sofrimento.

Pescador, inconformado, tentou lutar contra a água,
que teimava em devastar a cidade que habitava.
Mas a água era implacável. Não tinha negociação.
Uma onda gigantesca cobriu toda a região.

O homem ainda nadou para ao menos se salvar
ajudou outras pessoas que estavam a se afogar.
Foi parar em outras praias, chegando desacordado.
Passou ali toda a noite até que foi encontrado.

Acordou depois de dias sem saber onde é que estava
Sentia-se muito fraco e a todos perguntava:
Como vim parar aqui? O que foi que aconteceu?
Fique calmo, meu amigo, pois você sobreviveu.

Só então ficou sabendo que enfrentou o inimigo
Com toda garra que tinha pra salvar o seu abrigo.
Concluiu que a natureza, ao estar sendo judiada,
Partiu para revidar com uma força redobrada.

Passou a se dedicar salvando o meio ambiente
Começou por ensinar cada um a ser consciente:
Para que nosso planeta seja muito mais saudável
É preciso que ele tenha um crescimento sustentável.

VIVENDO E SE SURPREENDENDO


VIVENDO E SE SURPREENDENDO

Era meu primeiro dia de trabalho. Local e colegas novos, nem imaginava o que teria que fazer, mas estava feliz. Eu pensava que logo conheceria todo mundo e saberia fazer o serviço. Afinal, eu não era burra.
As circunstâncias haviam me obrigado a pedir demissão do lugar que eu adorava e ao qual já estava acostumada e enturmada. Já lá se iam quinze anos.
O concurso público, que não exigia mínimo de idade, fora providencial. Fiz a inscrição, prestei o concurso e fui aprovada.
Ronaldo foi um dos que mais me ajudou. Paciente, detalhista, competente. Passou a ser meu porto seguro.
Ficamos amigos. Eu notava que ele era um pouco afetado, mas atribuía aos anos de seminário que a mãe o fez cursar. Ela o desejava padre.
Mas, contrariando-a ele casou-se e teve três filhas. Esforçado, complementava o salário em outro emprego também de meio período. A mulher, jovem, lecionava e dava aulas particulares. As crianças estudavam perto e contavam com a avó materna que se dispunha a cuidar deles para que os pais pudessem trabalhar.
Ele conseguiu comprar a casa própria num bairro mais popular e levava a vida sem reclamar.
Certo dia, no entanto, queixou-se que o casamento estava perigando.
Vocês trabalham demais. Acho que deveriam fazer uma viagem de fim de semana pra namorarem um pouco. Vocês são muito jovens, merecem curtir mais a vida disse-lhe eu, tentando ajudar.
Ele sorriu, agradecido, pela minha boa intenção.
Alguns meses depois, tentando aliar o trabalho aos filhos, solicitei mudança de horário. Passei a trabalhar no período da tarde. Quando eu chegava, Ronaldo estava de saída.
Ficamos muito tempo sem trocar palavras.
Meses depois, encontrei-o na copa. Estava ótimo, sorridente, bem vestido. Parecia feliz.
Nossa, Ronaldo, que bom te encontrar assim alegre. Vejo que as coisas melhoraram pra você.
E ele, com um brilho diferente nos olhos, me contou:
─ Há quatro meses comecei a fazer terapia com um profissional muito bem recomendado.
─ Que bom ─ eu disse, animada   às vezes falta tão pouco pra gente se encontrar, não? A felicidade está na nossa frente e a gente não percebe. É preciso que alguém de fora  nos ajude.
─ Pois é ─ ele respondeu sorrindo ─ Sabe que acabei me apaixonando pelo meu terapeuta?
A única coisa que consegui falar para não demonstrar o meu espanto, foi:
─ É, é comum o paciente se apaixonar pelo terapeuta...




VIAJANDO DE AVIÃO PELA PRIMEIRA VEZ


VIAJANDO DE AVIÃO PELA PRIMEIRA VEZ

 (uso de catacrese)



Era a primeira vez que eu embarcava num avião. Sentia uma pontada na boca do estômago. Mas não queria dar o braço a torcer.

Olhei pela janelinha. Estava sentado bem em cima da asa do danado. Eu me sentia tão pequenininho diante daquele monstro imponente.

Agora ele começava a se mexer.

“Ai meu Deus!” ─ pensei, apertando bem os olhos, com a intenção de que meu pedido de socorro ficasse só entre mim e o todo Poderoso.

Segurei firme no braço da cadeira. Olhei em volta. Todos calmos.

Será que apenas eu estava apavorado? Estava com o céu da boca ressecado e sabia que minhas maçãs do rosto deviam parecer um pimentão, tão quente eu podia senti-las. Tentava disfarçar para que meus pais não percebessem e meus irmãos não rissem de mim.

Pela janela eu acompanhava cada movimento e vi quando o avião dobrou a pista à esquerda enquanto aquele homenzinho fazia sinais com umas bandeirolas, acho que indicando que ele podia ir.

Tive que me segurar junto ao encosto da cadeira tal a velocidade que o bicho atingiu. Pude ver o nariz do avião empinado para cima. Pronto, estávamos subindo rapidamente. Lá embaixo avistava-se o leito de um rio. Tudo foi ficando pequenino. As nuvens encobriram minha visão.

Mamãe, percebendo meu temor, pegou a minha mão. Abandonei-me àquela proteção, conseguindo me acalmar. Parecia que estávamos parados no ar. Relaxei. Só então senti que minha barriga da perna tinha estado dura como um pau.

Distraí-me com a chegada do carrinho que trazia refrigerantes e barrinhas de cereais.

“Seja o que Deus quiser” ─ pensei, enrolando a manga da camisa.

Respirei fundo e procurei enterrar meus medos para aproveitar a viagem. Afinal, aquela era apenas a primeira etapa.

CONFRONTO DE NARCISOS

Confronto de Narcisos




A notícia de que Kim Jong-Un convidou Donald Trump para um encontro em maio próximo levou-me a uma viagem:
Num ringue, em sumários trajes de Sumô, de um lado o ditador norte-coreano, do outro, o surpreendente Trump, a se enfrentarem numa luta de Narcisos.
Torcidas, identificadas pelos cortes de cabelo no estilo de seus ídolos, se fazem presentes, instigando-os a derrubarem o rival.
Os egos os mantém eretos, mas a necessidade de vencer o inimigo, no menor espaço de tempo, melhor dizendo, em segundos, os transforma em verdadeiros Hércules, com o propósito único de empurrar o adversário para fora do círculo ou para o solo.
Imaginação à parte, vejo esse encontro com certa cautela. Da cabeça de cada um, assim como das fraldas dos bebês, nunca se sabe o que poderá sair.
De qualquer forma, ambos devem conhecer as regras: como no jogo, quem usar de técnica ilegal – ou ‘Kinjite’ – será automaticamente derrotado.




Torço para que o assunto a ser tratado seja o desarmamento nuclear. Em todo caso, o mundo terá que aguardar até que o encontro seja mesmo realizado e disso decorra um esperado tratado de Paz.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

OS PRIMEIROS CARNAVAIS A GENTE NUNCA ESQUECE



Enquanto as baterias das Escolas de Samba explodiam num batuque empolgante, Stella lembrava, nostálgica, dos bailes de Carnaval no prédio do Banco do Brasil, no centro de São Paulo.
Fechava os olhos e podia vislumbrar cada centímetro daquele lugar que, durante tantos anos, foi palco de sua atuação. A mãe caprichava na fantasia e ela se acabava no salão, ao som daquelas marchinhas que tão bem conhecia: Mamãe eu quero, A cabeleira do Zezé, Oh Jardineira, As águas vão rolar...
Quando acabava o carnaval continuava cantarolando, no ritmo do balanço do fundo do quintal. Os adultos diziam que não podia cantar mais. Era quaresma! Mas as músicas não lhe saíam da cabeça.
Como num filme, iam também desfilando em sua mente, os tantos bailes carnavalescos que fizeram parte de sua adolescência e juventude. Ali, naquele cenário, vivia seu dia de bailarina, de havaiana, de holandesa, de princesa à procura de seu príncipe encantado, embalada pelo som mágico da orquestra que, animada, tocava sem parar. Lembrava, como se fosse hoje, da tristeza que invadia aqueles foliões,  quando soavam os últimos acordes: param param param param pam param param pam.
Voltavam para casa suados e cansados, mas felizes. Prontos para voltar no dia seguinte, incansáveis.
“Ai que saudade que eu sinto
dos bailes da minha infância
que os tempos não trazem mais.”

Embora a tela da TV registrasse a alegria do desfile de Carnaval, Stella, de olhos fechados e úmidos, tentava conter a emoção, aflorada pelo ritmo cadenciado, que se confundia com as batidas descompassadas do seu coração. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

MAMÃE, NÃO VÁ!


Como é bom quando a mamãe está em férias. Adoro cada momento que passamos juntas. Em viagem, ou por aqui mesmo, quando ela me leva ao Parque da Água Branca e jogamos peteca. Corro pelo parque sabendo que ela está sempre ali por perto, me protegendo, me dando carinho. Minha maior amiga, como diz meu pai.
Ela não mede esforços pra cuidar de mim e me fazer feliz. Nossa ida para Ribeirão Preto, pra casa do tio Juca, irmão dela, por exemplo, foi pra eu me fortificar. Ela disse que eu estava com anemia.
Não sei muito bem o que é isso, mas deve ser sério. Ela ficou muito preocupada. Disse que iríamos para o interior para que eu tomasse ar puro e comesse coisas saudáveis.
Meu tio e minha tinha Margarida são muito legais. Naquela casa tem galinheiro e eles matam o bicho na hora pra cozinhar no fogão à lenha.
Não gosto de galinha. Mas gostei de peru. Agora eles fazem sempre peru só pra eu comer. Muito bom.
Custo um pouco pra engolir. Sabe, acho muito chato ficar ali na mesa mastigando.
Meu tio fica bravo, mostra um rabo de tatu que ele tem e diz que se eu não comer tudo vai usar o danado.
Acho que ele não tem coragem. Em todo caso, tento mastigar um pouco mais e engolir. Perde-se muito tempo comendo.
Ontem a empregada achou um escorpião. Disse que os escorpiões andam sempre em dupla e ficou procurando o par. Não achou.
Minha mãe foi dormir preocupada. Rezou pra Santa Therezinha do Menino Jesus cuidar de mim.
Quando estávamos dormindo, ouviu uma voz chamando-a:
─ Amelinha! Amelinha!
Levantou-se e foi ver quem a estava chamando. Não havia ninguém.
Arrumou minhas cobertas e verificou se eu estava dormindo.
Pela manhã, a empregada retirou as roupas de cama para lavar e encontrou o escorpião nos meus lençóis.
Mamãe disse que Santa Therezinha ouviu suas preces e me protegeu.
Não sei se é verdade, só sei que passei a rezar à Santa desde então.
Passamos três semanas em Ribeirão. Fiquei corada e engordei. Mamãe ficou mais tranquila. Voltamos a São Paulo porque ela precisava voltar a trabalhar.
Toda vez que ela volta a trabalhar sinto muita falta dela e choro. Vejo lágrimas nos olhos dela também e peço, chorando:
─ Não vá, mamãe, não vá!


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UMA SEGUNDA CHANCE

      Na última aula da Oficina de Escrita recordamos, ou melhor, aprendemos o que é         Prosopopeia.


"ret figura pela qual o orador ou escritor empresta sentimentos humanos e palavras a seres inanimados, a animais, a mortos ou a ausentes; personificação, metagoge."

Nossa lição foi, portanto, elaborar um texto como sendo um objeto de brechó, que ficou assim:


Vai ser difícil sair daqui.
As pessoas me olham, me tocam, fico animado, mas nada. Vão embora sem, ao menos, me dar um até logo.
Eu me sinto mal, sabe? Diminuído, esquecido, desprezado.
E lembrar que já tive meus momentos de glória...
Lembro-me de quando fui destaque pela primeira vez. Era um dia de festa. Todos me admiravam. Eu estava radiante. Brilhava!
Fui idealizado por um cara importante, de renome. Especialmente para aquela data.
Suely recomendou:
─ Quero que todos se lembrem deste momento, portanto capriche.
E ele caprichou.
Fiquei sem saber o valor de tudo aquilo. Mas isso não era importante naquele momento. Estava feliz porque iria chamar a atenção de todos. Era o que eu queria.
A gente vive de altos e baixos. A vida é uma roleta russa. Hoje estou aqui, em segundo plano, vendo gente entrando e saindo, sem ser notado.
Opa. Estou sendo acariciado. Nossa, que sensação deliciosa!
Parece que fui escolhido. Já me sinto mais animado.
Acho que agradei. Vejo que estão combinando o valor. Não consigo entender o que dizem, mas...
Viva! Deu certo.
Não serei mais apenas um velho vestido abandonado num brechó.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Crônica do dia a dia

Reflexões de um mal-humorado

Tenho refletido sobre minha forma de ser e, num momento de insônia, decidi mudar de atitude. Não seria mais um cara mal humorado e não diria mais tanto “não”.
Quando desci para o café, Luzia conversava animadamente com nossos filhos.  Pararam imediatamente de falar e percebi a troca de olhares ao me verem todo sorridente distribuindo beijos.
Ainda pude ouvi-la falando algo como “louca pra comprar...”
- O que é que você estaria louca para comprar, meu bem? – disse-lhe eu carinhosamente.
- Ah, deixa pra lá. – respondeu Luzia, levantando os ombros.
- O que quer que seja,  faço questão que compre. Use o cartão de crédito. Quero vê-la feliz.
Eles se olharam sem entender o que estava acontecendo  e eu disfarcei, servindo-me de mais café.
Dificilmente, sentava-me à mesa com eles para um café da manhã tranquilo. Ou reclamava dos gastos de cada um, ou, simplesmente, lia meu jornal engolindo um café pretinho.
Meu filho ensaiou:
- Pai, a galera tá marcando um fim de semana em Ilhabela e...
- De quanto você precisa, filho. Diga que coloco na sua conta. Aproveite a vida. Vá com a galera passar o fim de semana. Sei que você é ajuizado. Confio em você.
Minha filha, até então calada, arriscou:
- Pai, neste ano pra participar da formatura eu...
- Já sei,  filhota, é necessário contribuir mensalmente. Quanto? Quanto é a cota mensal? Tenho certeza de que você se formará com louvor. Sempre foi uma aluna exemplar.
Acabei de tomar o café, beijei os três que continuavam me olhando perplexos e perguntei?
- Alguém quer uma carona?
Saí assobiando e me sentindo mais feliz. Afinal, pela primeira vez em tantos anos, tivera um momento agradável com minha família.
Peguei o carro e, mal tinha andado duas quadras, senti que a direção puxava para o lado. Parei para verificar. O pneu da frente estava furado.
Eu, de terno, gravata e com reunião marcada para daí uma hora.
Abordei um rapaz que passava:
- Sabe trocar pneu?
- Sei sim, moço.
O rapaz era rápido e jeitoso e num instante fez o serviço.
Ficou agradecido com os cinquentinha que lhe dei.
O trânsito estava infernal. O sinal fechava e abria e ninguém andava.
Os ambulantes entraram em ação:
- Vai carregador de celular, doutor?  - Comprei um.
- Pano de chão, meia dúzia por R$ 25,00!
- Dá aqui meia dúzia, amigão.
- Fruta do Conde! Fruta do Conde! Leve seis e pague cinco.
E foi caixa de morango, vassourinha pra limpar teto, balas de todos os tipos, panos de prato, raquete para matar mosquito, guarda-chuva, sem falar no trocado que dei para os malabaristas da esquina e para os mendigos.
Cheguei em cima da hora da reunião. Minha secretária me aguardava ansiosa e com muito jeito me avisou que a reunião havia sido desmarcada.
- Tentei ligar pro seu celular, mas estava fora de área.
Demonstrou surpresa quando lhe falei:
 - Tudo bem, Fátima, aproveito pra descansar um pouco.
Mas, o outro cliente também telefonou adiando a reunião.
- Sem problema, Clóvis - disse-lhe  eu no meu melhor humor - veja o dia e a hora que lhe convém.
Aproveitei e convidei Fátima para almoçar comigo. Ela ficou me olhando e perguntou:
- Tá tudo bem, seu Armando?
- Está tudo ótimo, Fátima. Já que não há reunião vamos almoçar com muita calma. Quero aproveitar para comprar um presente para Luzia. Gostaria que me ajudasse.
Cheguei em casa tarde, mas feliz. Quando estava entrando, um rapaz me perguntou se tinha alguma coisa para dar e deve ter ficado sem entender  por sair com caixa de morango, fruta do conde, vassourinha pra limpar teto, pano de chão, guarda chuva, carregador de celular, etc., etc., etc.

Hoje concluí que nós somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A mãozinha

Quem  nunca sentiu coceira nas costas que atire a primeira pedra.
O pior é que a coceira vem naquele pedaço das costas entre o pescoço e a cintura que não conseguimos alcançar de cima para baixo. ou de baixo para cima.
Viva quem inventou a mãozinha salvadora!



E isso me fez lembrar uma história que aconteceu quando eu era criança.
Minha mãe tinha uma amiga, Dona Bauer, que teve um problema na coluna.
Fomos então visitá-la e a coitada estava toda engessada, o que me impressionou tremendamente.
Quando ela contou que foi coçar as costas com a “mãozinha” e que ela se quebrou, fiquei sem entender nada.
E ela repetia:
─ Como vou fazer pra coçar as costas sem minha mãozinha? 
Eu pensava: "Que mulher fiteira! A mão dela não tem nem mesmo um arranhão." 
Achei tudo muito estranho e só fui entender quando saímos dali e consegui matar minha curiosidade, perguntando para minha mãe por que ela falava que tinha quebrado sua mãozinha. Ainda se fosse do tamanho da minha?

Criança entende tudo ao pé da letra. Principalmente, numa época em que não havia tanta informação e nós, crianças, éramos bastante ingênuas.


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Mulher, Mulher...



Tantas facetas na nossa vida de mulher.
Agora, por exemplo, estava lavando louça. Sim. Lavando louça. Tentando usar luvas de borracha para não estragar as unhas recém-pintadas.
Que malabarismo! Já quebrei copos, xícaras e pratos. O que posso fazer, escorregam da minha mão com luvas. Confesso que tenho muita dificuldade de usá-las. Mas são um mal necessário.
Também quero cantar e estou me preparando para um musical do coral a que pertenço. Aí, outra dificuldade: decorar as letras. Apesar do conselho de minha neta de dez anos que diz que tenho que repetir infinitas vezes...
Pior. A apresentação é amanhã. E dá-lhe gravador. E dá-lhe repetir infinitas vezes.
O curso de escrita teve que ficar um pouco de lado. O que não me impede de participar da Antologia de contos que será lançada no Clube  em fins de novembro. Estaremos lá com alguns contos que estou aprendendo a escrever.
Bem, tirando as horas de dona de casa, de motorista particular, de cuidadora, como diz meu marido, de avó coruja e um pouquinho de mãe – por incrível que pareça, ainda – tenho que cuidar da aparência, afinal os brancos insistem em dominar e eu insisto em cobri-los. Ainda não criei coragem para assumi-los. Portanto, como diria uma grande amiga, acabo de chegar em casa após retocar a inteligência.
Estamos aí, vivendo intensamente, sem pensar muito que, afinal, já passamos do cabo da boa esperança.
Mas se começarmos a pensar muito nisso, não vai dar certo.
Alguns amigos têm nos deixado, aos poucos, o que nos faz refletir que a vida é um raio.
Vamos curtir o que nos resta realizando sonhos que nos ajudarão a atravessar esses anos que estão aí por vir. Vamos rir, vamos realizar, vamos amar, vamos percorrer as redes sociais, vamos encontrar amigos, e jogar conversa fora.
Vamo que vamo.


domingo, 21 de agosto de 2016

OLIMPÍADAS RIO 2016


Quando, há oito anos, o Brasil foi escolhido para ser sede das Olimpíadas 2016 fiquei orgulhosa e feliz.
Depois, quando tomei conhecimento de tantos desmandos, fiquei receosa que nada desse certo.
Obras atrasadas, corrupção, desastres, etc.
O medo do ridículo e a vergonha tomaram conta de mim.
Assisti à abertura que me surpreendeu. Pela simplicidade, pelo espetáculo, pelo recado dado ao mundo.
Aí, meu coração brasileiro sorriu, gritou, torceu, sem pudores. Ufanismo sim, por que não?
Não sei por que temos, às vezes, medo de sermos ufanistas. Os outros países são.
E torci. Pra cada modalidade, pra cada jogo, com todo meu orgulho deste país verde e amarelo que, descobri, continuo amando muito.
Chorei, várias vezes, com o Hino, o mais bonito do mundo, quando, finalmente,  resolveram apresentá-lo sem cortes.
Já estava indignada com aquela versão escolhida, não sei por qual imbecil, e que fazia com que ninguém conseguisse acompanhar cantando.
Agora que as Olimpíadas terminam com um saldo positivo, respiro aliviada por termos conseguido, a duras penas, mostrar ao mundo que o espírito brasileiro é único. Que o Rio de Janeiro é a cidade mais linda do mundo e que mesmo com todas as dificuldades políticas e econômicas e a total falta de apoio aos atletas, esse povo tem garra, perseverança e, sobretudo, ama como eu este país.



sábado, 28 de maio de 2016

VISÃO INFANTIL




Maria está na escola Waldorf e convive com crianças de todos os níveis sociais.
Uma das amiguinhas, de família muito pobre, que será aumentada com o nascimento de um irmãozinho, recebeu a visita de alguns coleguinhas, inclusive Maria e Pedro, que com suas mães foram levar roupinhas e ajuda.
Os adultos ficaram chocados com o que viram: num cômodo que servia de sala, cozinha e quarto, viviam todos. Condições sub-humanas.
No chão estavam alguns pedaços de isopor que faziam as vezes de brinquedos e com o qual Maria e as outras crianças se encantaram e brincaram.
Não havia banheiro. Apenas um buraco no chão.
Quando pensamos numa família pobre imaginamos uma casinha de pau a pique ou mesmo de tijolo sem acabamento,  simples.  Mas não era isso que se via ali. Tábuas colocadas de forma precária com o objetivo de constituir o que seria uma parede.
Voltaram arrasados.
Carol queria conversar com Maria e sentir o que se passara em sua cabecinha.
Quando chegaram em casa perguntou?
- O que você achou da casa da sua amiguinha, Maria?
E Maria, alegremente:

- Adorei, mamãe!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Que tempo bom!

Sábado passado Irene, Janet, Jurema e eu tivemos um encontro muito gostoso num café para matarmos a saudade. Sonia Marney e Eloisa não puderam ir, uma pena.
Estudamos juntas no colegial do Mackenzie há “alguns” anos. Perdemos o contato, nos reencontramos e temos procurado manter esse vínculo.
Janet foi reencontrada agora.
Também temos contato com Bia, Nilza e Regina Lessa que moram fora de São Paulo.
 A Irene, Jurema, Carmem e Bia, estiveram no lançamento do meu livro em dezembro.
A Jurema me contou que esperava que, no meu livro, eu falasse sobre a nossa fase de adolescência.
Resolvi, então, contar aqui sobre o grupinho que formamos no segundo colegial, quando juntamente com a Irene, Janet e mais alguns, passamos do período da tarde para o da manhã.
Ao grupinho composto por Jurema, Ledice, Regina e nia Marney, demos a sigla de JULERESO  (pronuncie-se JULERRESSÔ)
Nossos namorados à época eram Nelson, Paulinho, Didi e André (NEPADIAN)
Parecia um nome francês. Só nós sabíamos o que significava.
Naquela época não havia impulsos telefônicos e costumávamos passar trote. Uma vez, passando um trote por telefone, a Sônia perguntou se o interlocutor já havia lido Julerressô Nepadian, um autor consagrado. E, imaginem, demos muita risada.
A Sônia, que nós chamávamos de Marney, era muito engraçada. Certa vez, ligou para um dos estudantes de engenharia que paquerávamos, como se fosse da secretaria do Mackenzie, dizendo que não haveria aula no próximo dia.
Depois nos arrependemos e ela ligou novamente. Disse que era a esposa do Beluzzo (que era o diretor do colegial do Mackenzie) e que houve um equívoco. Só que ela pronunciou eqüívoco.
Nós caímos na risada.
O cara perguntou quem estava rindo e ela respondeu:
São os Beluzzinhos...
Tempo muito bom aquele que deixou muita saudade. Tanta que fizemos questão de matar com esse encontro de sábado.
Se Deus quiser, haverá muitos outros.

Foto de Beatriz Rivadávia.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A DESCOBERTA DE JÚLIA

Júlia, dez anos, ainda acreditava em Papai Noel. Ou queria acreditar, sabe-se lá.
Passado o Natal, meses depois, descobriu a cartinha que tinha enviado ao bom velhinho. Estava na bolsa da mãe.
Desmontou. Chorou muito. Então ele não existia. Ficou triste.
O raciocínio fez com que ela constatasse que Coelhinho da Páscoa não existia também. Então o coelhinho era eu.
Eu que roía as cenouras que colocávamos no ninho. Um ninho que ela preparava sempre aqui na garagem da minha casa.
Foram tantos anos a fazer o ninho e, o melhor, a descobri-lo no dia seguinte, domingo de Páscoa, cheio de guloseimas e com cenouras roídas por toda parte, terra espalhada indicando o caminho por onde ele teria passado.
E ela vibrava.
Ano passado os pequenos estavam aqui então foram três ninhos e a Carol, rindo muito,aprendeu a roer a cenoura como eu fazia e até adotou a parafernália para fazer lá em Barra Grande.
Mas Júlia veio este ano fazer o ninho. Não queria perder aquele encanto e me deixou uma cartinha que coloco abaixo sem correções:

Não consegui mostrar um coração grande e recortado que ela fez

quinta-feira, 24 de março de 2016

Mensagem de Páscoa

A Páscoa no Segundo ou Novo Testamento é a passagem da morte para a vida Para nós cristãos, a Páscoa tem este significado, a Ressurreição de Jesus, a ressurreição para a vida plena, para a vida eterna, para uma nova vida de amor com Deus.
E, no entanto, o que estamos assistindo. Nem amor a Deus nem amor ao próximo.
O mundo está virado de cabeça para baixo. Cheio de ódio, de morte, de assassinatos, de bombas.
Milhares de refugiados, arriscando suas vidas e de suas famílias para tentar fugir da morte, da destruição para, às vezes, encontrar isso mais adiante, quando os barcos viram de tão lotados ou a saúde fraca não permite chegar a um destino.
É muito triste ver essas cenas na TV. E também ver algumas fronteiras se fechando. Imaginem o desespero dessas famílias que deixam suas casas, destruídas, em busca de um canto de paz para poderem recomeçar e criar seus filhos.
E nós ficamos pensando no nosso almoço de domingo, nos ovos de Páscoa, e as crianças no coelhinho do Páscoa.
Aproveitemos o momento tão significativo, para pedir a Deus proteção para toda a humanidade, consciência para esses loucos do Estado Islâmico, sabedoria para os governantes, união para as raças, respeito às diferenças e tolerância para as opiniões contrárias.

Boa Páscoa a todos

sexta-feira, 18 de março de 2016

Pedroca, botando as manguinhas de fora


Pedroca está com 2 anos e é muito fofo. (corujice minha? talvez).

Ele entende tudo e fala tudo, não tão bem como Maria falava nessa idade, mas se faz entender.
Adora a irmã e se sente seguro perto dela. Ela, por sua vez, como irmã mais velha o protege.
Maria está fazendo um regime de lactose, para detectar se isso é que lhe dá uma dor na barriga. Ela, muito conformada,  faz o regime direitinho.
Ele percebe tudo.
Outro dia, queria porque queria um tal cobertor. Brigaram pelo cobertor. E ele saiu-se com essa.
- Num pode, num pode porque tem "LEITE"...




terça-feira, 3 de novembro de 2015

Quinze dias num paraíso

Que coisa boa sair do dia a dia da cidade grande e curtir um lugar paradisíaco onde o dia custa a passar, o tempo nos permite desacelerar, fazer uma porção de coisas, e ainda curtir a família e, principalmente, ver a evolução das crianças. 
Seis meses fazem uma enorme diferença.E não os víamos desde abril. 
Pedroca, que fará 2 anos daqui a três dias, está falando e entendendo tudo, faz frases e se faz entender, além de ser engraçado demais e nos chamar de "vater" e lê. Uma delícia!
Maricota está uma mocinha. Muito esperta e gostando muito da escola. E, pra variar, segue  uma passagem dela, que achei ótima.
Estávamos na praia e na hora de ir embora os dois cansados, querendo colo, só que colo da mãe, claro.
E chora daqui, chora dali, Carol os convenceu a irem a pé de mão dada com ela. Mas, ficou meio séria, juntando as coisas: baldinho, pazinha, roupas, toalhas, etc. enquanto o Mauro trazia pra casa as cadeiras, o guarda-sol e a outra sacola.
Quando iam andando em direção ao restaurante, Maria virou-se pra mãe, que ainda estava séria e, com uma carinha conquistadora, disse:

- Cadê aquela cara linda???

Por essa e outras é que estamos curtindo muito esta vinda para cá.
Está valendo cada minuto. Muito muito bom!


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Recado aos amigos

     Tenho estado ausente do blog. É que o livro tem me tomado todo o tempo. Não sei como fazem os escritores que editam livros, fazem crônicas semanais para os jornais, dão entrevistas para as emissoras, vão a inúmeros programas de TV. Não consigo ser assim, plural. Tenho que ir por partes.
No momento, toda minha atenção está direcionada ao livro. E isso até me tira o sono, às vezes. Talvez porque seja a primeira vez e a responsabilidade é grande. Algumas pessoas têm me cobrado a falta de posts por aqui. Mas fica explicado o motivo. Aguardem. Em dezembro terei realizado esse projeto e ficarei mais descompromissada e, portanto, mais disponível para o blog.
Bem, conto com vocês no lançamento, meus queridos leitores. Farei a devida divulgação, mas já marquem em suas agendas: 
15 de dezembro.